Cinemateca Ambrosia: …E O Vento Levou

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Abrindo a coluna Cinemateca Ambrosia, que vai focar nos filmes que marcaram a própria história do cinema, merecendo ser chamados de clássicos (mas tá, de vez em quando falo de alguma comédia ou filme de herói, pra diversificar), vamos relembrar o maior de todos eles…

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Esqueçam Titanic, O Senhor dos Anéis, Harry Potter e as aventuras do Homem Aranha. Se a grandiosidade da sétima arte tivesse que ser exibida em um único filme, com todas as dificuldades de se produzir uma grande obra, MUITA publicidade, fãs enlouquecidos, a maior bilheteria de todos os tempos (se corrigirmos o valor dos ingressos) e um fenômeno pop insuperável, só uma película poderia ser a escolhida: …E O Vento Levou!

Um grande livro

Símbolo máximo da Golden Age do cinema, o clássico de 1939 permanece atual em seus setenta anos, com uma história quase tão fascinante quanto aquela que vemos em seus 222 minutos,  e que começa num livro.

Foi em 1936 que a Macmillan Company publicou Gone With The Wind, que viria a ser o único livro da jornalista Margaret Mitchell (sem contar uma redação publicada após a sua morte). As 1.037 páginas da obra contavam uma emocionante história de amor e guerra, mas principalmente de sobrevivência, que encontrou terreno fértil na América pós-depressão, se tornando um sucesso editorial instantâneo e começando o fenômeno grandiloquente que envolve tudo que se relaciona a elas.

Nos anos 30, a fábrica de sonhos de Hollywood tinha um papel muito mais significativo que nos dias de hoje, e os grandes astros eram tratados como a realeza. Clássicos da literatura eram populares nas telas, e toda obra de sucesso acabava terminando em filme, ou era pelo menos imaginada como um. Assim, em menos de um mês o livro chegou ao estúdio de David O. Selznick, então genro de Louis B. Meyer (da MGM). O produtor resolveu comprar os direitos da obra por insistência de sua secretária, e o fez por US$ 50.000, então a maior quantia paga a um autor desconhecido.

David comprou os direitos antes de ler o livro, e foi só depois disso que tomou consciência do tamanho do mesmo e de como seria trabalhoso adaptá-lo para o cinema. Dedicado a produzir poucos filmes ao ano, mas com excepcional qualidade, ele viu no fenômeno literário a chance de fazer uma obra-prima, e assim foi.

Criando a lendaeoventolevou2

Com a crescente popularidade da história e as especulações sobre a produção, Selznick se viu pressionado por todos os lados. Precisava de dinheiro para um investimento tão grandioso, e alguns céticos diziam que o filme seria um fracasso. O público ansioso dava palpites sobre o elenco, enquanto o produtor ainda tentava chegar a uma versão definitiva do roteiro.

Numa época onde o produtor era a alma de um filme, Selznick não fez por menos, e apesar de todos os profissionais envolvidos, tomou para si a responsabilidade de levar …E O Vento Levou para as telas com a máxima fidelidade.

O primeiro rascunho do roteiro feito por Sidney Howard acabou sendo o guia principal da ação que vemos no filme, mas o próprio David O. Selznick editava e reescrevia cenas inteiras, minutos antes que elas fossem gravadas, apesar de ter contratado diversos escritores para isso.

O caos atingia a escolha do elenco também, com o público decidido a ver o astro Clark Gable interpretando o galante Rhett Butler, e todas as maiores estrelas do cinema se candidatando ao papel da heroína Scarlett O`Hara.

Para conseguir Gable (e mais dinheiro), Selznick teve que pedir ajuda ao sogro, e o empréstimo do astro custou os direitos de distribuição internacional do filme, num acordo que se revelou um grande negócio para a MGM.

Scarlett, porém, era mais difícil, já que o número de candidatas ao papel era infinito. Capitalizando com a polêmica, o produtor anunciou uma busca nacional, e mais de 1.400 candidatas foram entrevistas, com um gasto final em testes equivalente a produção de um filme inteiro. Estrelas como Bette Davis e Katherine Hepburn foram consideradas, mas foi no fim de 1938, um mês antes do início oficial das filmagens, que a busca terminou.

Scarlett O`Hara não era bela. Vivien, porém…

eoventolevou3Scarlett O`Hara não era bela. Os homens, porém, só a notavam quando já subjugados pelo seu encanto…

Esta é a primeira frase do livro de Margaret Mitchell, que apresenta sua heroína como uma moça normal, mas com um magnetismo quase inexplicável, que tinha todos os homens a seus pés. Em Hollywood, porém, a história seria um pouco diferente, e a Scarlett das telas era uma das mulheres mais lindas do mundo.

Vivien Leigh era uma jovem atriz inglesa, pouco experiente e desconhecida na América. Amante de Laurence Olivier, então envolvido em O Morro Dos Ventos Uivantes, ela deixou a Inglaterra indo a seu encontro, com o objetivo secreto de conseguir o papel mais importante da história do cinema. Tal idéia pareceria impossível, mas Vivien tinha a determinação de Scarlett e o contato certo, já que o agente de Olivier era o irmão de David O. Selznick, Myron.

Foi em 10 de dezembro de 1938, quando Selznick ateou fogo à sucata de antigas produções (incluindo o King Kong original), limpando o estúdio para construir os cenários de …E O Vento Levou, que Myron o apresentou à Vivien. Selznick disse nunca ter se recuperado daquela primeira impressão, e a moça foi testada quase que imediatamente, sendo confirmada como a Scarlett dos cinemas quinze dias depois. Pelo menos na história oficial…

Segundo a teoria da conspiração muito mais plausível, David já pretendia escalar Vivien desde o ano anterior. Mas a possibilidade de rejeição do público a uma atriz inglesa interpretando a grande heroína da América, enquanto várias das mais queridas estrelas disputavam o papel fez com que ele a mantivesse nas sombras. Outras atrizes foram testadas, mas cada cena parecia confirmar a excelência de Vivien. Ela tinha a determinação, a força e a sagacidade necessárias ao papel, além de uma beleza hipnótica e delicada.

Amor e Guerra

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A saga de Scarlett O`Hara começa numa manhã primaveril, quando descobrimos que a linda garota cercada de admiradores sofre por amar o vizinho Ashley Wilkes (Leslie Howard), que acabara de noivar com a prima Melanie Hamilton (Olivia de Havilland).

Contrariando a educação que recebeu e mostrando pela primeira vez sua determinação inabalável, Scarlett se declara para o rapaz, sugerindo que ele fuja com ela, já que evidentemente não pode amar a prima sem graça. A recusa polida de Ashley lhe rende um tapa na cara, e quando Scarlett se vê sozinha em sua vergonha, fica sabendo que a cena foi testemunhada por Rhett Butler, renegado social no conservador sistema sulista.

É declarada a Guerra de Secessão, e por despeito, Scarlett se casa com o irmão de Melanie, na tentativa de mostrar para Ashley que não o amava tanto assim. Em pouco tempo ela fica viúva, e é Rhett quem a resgata do falso luto e da reclusão que sua nova condição impunha, cortejando-a com presentes, gracejos e muitas provocações.

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A derrota destrói a vida fácil que Scarlett conhecia, e ela deixa de ser a menina mimada de antes para se tornar uma mulher dura, forte e determinada.

Enfrentando o frio, a morte e a fome, ela jura passar por isso e se reerguer, numa das cenas mais famosas da história do cinema.

É no sul derrotado e dominado pelos aproveitadores nortistas que ela começa a se reerguer, abandonando de vez todas as tradições e se tornando também uma renegada. Enfim, ela aceita se casar com Rhett, e mesmo gozando da felicidade que a afinidade entre ambos lhe proporcionava, ela não tira Ashley da cabeça.

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A tragédia volta à vida de Scarlett, que por fim é abandonada por Rhett, justamente no momento em que percebe seu amor por ele. Sendo quem é, ela simplesmente levanta a cabeça e promete reconquistá-lo e retomar sua vida, e fica difícil não acreditar nela.

Scarlett não é uma heroína comum. É quase a vilã do filme, simplesmente por demonstrar egoísmo e falta de nobreza. Mais que uma heroína, ela é crível, e por isso mesmo apaixonante.

Fenômeno

Não é raro que adaptações de livros para o cinema decepcionem os leitores, mas no caso de …E O Vento Levou, mais uma vez temos algo atípico.

A espera, as premiéres grandiosas e a tocante história de sobrevivência fizeram um sucesso incomparável. Filas gigantescas de pessoas rodeavam os cinemas, e mesmo a longa duração do filme não impedia que ele fosse visto e revisto por fãs ardorosos, que consumiam tudo que podiam sobre a história e seus astros.

A aclamação veio na noite do Oscar de 1940, quando o filme ganhou dez prêmios (recorde para época), num ano considerado especialmente grandioso para a indústria. No frenesi do fenômeno, um jornal de Los Angeles anunciou os vencedores antes da festa (os jornais recebiam os resultados antes, para prepararem as edições do dia seguinte, desde que mantivessem o sigilo), resultando nos envelopes lacrados que temos hoje.

Vivien Leigh ganhou seu primeiro prêmio de melhor atriz (o segundo viria com Uma Rua Chamada Pecado, de 1951), e o roteiro de Sidney Howard ganhou o primeiro Oscar póstumo da história (o escritor morreu num acidente de trator em sua fazenda, antes de ver o filme concluído). Hattie MacDaniel, a ranzinza Mammy, tornou-se a primeira atriz negra a ser premiada (como atriz coadjuvante), embora tivesse sido criticada pela comunidade afro-americana por interpretar uma empregada.

Por causa da Segunda Guerra Mundial, ele só chegou à Europa com a paz, em 1945. Exibido por anos a fio, fez ainda mais sucesso nos países recém saídos de batalhas, com Scarlett sendo estabelecida como heroína-mor e símbolo de resistência às adversidades da vida (Hitler proibiu que o filme fosse exibido na Alemanha depois de tê-lo assistido, e vários filmes de Vivien foram encontrados em seus aposentos, após sua morte).

Curiosamente, é o único filme de guerra que não exibe uma única cena de confronto…

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Com o estrondoso sucesso do filme, é lógico que para os envolvidos com ele o único caminho era para baixo.

David Selznick continuou produzindo filmes, mas nunca nenhum outro chegou perto do sucesso de …E O Vento Levou, ou deixou de ser comparado a ele.

Vivien Leigh se dedicou mais ao teatro, formando com Olivier o casal mais famoso dos palcos ingleses, e foi aclamada por público e crítica quando deu vida à outra beldade sulista em meio a crise, a atormentada Blanche Dubois de Uma Rua Chamada Pecado. Porém, bastava estar na rua em algum país estrangeiro ou ser manchete dos jornais para que seu nome aparecesse eternamente associado ao de Scarlett O`Hara.

Clark Gable continuou como o Rei de Hollywood, mas nenhum papel era como Rhett, e Leslie Howard morreu pouco depois de dar vida a Ashley, durante a guerra.

Olivia de Havilland é provavelmente a mais bem-sucedida dos quatro protagonistas, já que além de ter tido uma carreira marcante após o filme, é a única que ainda está viva.

eoventolevou8Eternizado em livros, bonecos, jogos e toda sorte de objetos (de espelhos de tomada até tapetes de banheiro), passando por intermináveis adaptações para o teatro, ainda hoje a marca …E O Vento Levou rende milhões de dólares por ano, graças à horda de colecionadores e fãs que o mantém vivo como fenômeno pop.

As desastrosas continuações se tornaram Best-sellers, e a primeira delas deu origem a uma minissérie, malfadada pelo impacto do filme original, já que é quase impossível pensar em Scarlett e Rhett sem os rostos de Leigh e Gable.

Inegavelmente, é o filme mais famoso de todos os tempos, e o próprio símbolo do que é Hollywood e o cinema americano por excelência. Uma história imortal de paixão e perseverança, que se fez clássico instantâneo pelo sucesso inegável, mas que é atemporal e por isso mesmo, muito atual.

É difícil que algum dia se repita a comunhão de fatores que faz com que cada cena de …E O Vento Levou seja um espetáculo à parte, justificando o título ambicioso do relançamento dos anos 70:

O mais magnífico filme da história!

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