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Cinemateca Ambrosia: TITANIC

Pouca coisa antes do Natal, James Cameron lança o filme mais caro da história para um público descrente, com críticas que previam prejuízo. No primeiro fim de semana, milhões de dólares anunciam o que viria. O crescente sucesso nas bilheterias faz as críticas mudarem, e mesmo com uma história rasa, o filme é um fenômeno, marcando a história do cinema. Sim, eu poderia estar falando de Avatar e seus heróis em 3-D, mas Cameron está só repetindo o feito de 12 anos atrás…

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O navio dos sonhos

Essa história começou em 1912. O sentimento de esperança pelo século XX estava em alta, a indústria se desenvolvia e o sonho americano era palpável, à medida que milhares e milhares de imigrantes europeus desembarcavam no novo mundo. Era cedo para aviões e embora tivéssemos os dirigíveis, ainda eram os navios que transportavam as pessoas pelo mundo.

Levava cerca de sete dias para que um navio cruzasse o Atlântico da Europa aos Estados Unidos. Além do transporte de passageiros, os navios levavam carga e correspondências, misturando tecnologia e funcionalidade com acomodações dignas de hotéis de luxo (no caso dos passageiros da primeira classe, é claro). Nesse cenário, a White Star Line lançou sua maior estrela, que tragicamente se tornaria o navio mais famoso da história: o Titanic.

titanic2Maior e mais moderno objeto criado pelo homem até então, o Titanic era considerado infalível (embora o termo inafundável só tenha sido usado mesmo depois de seu naufrágio, por ironia). Com 4 elevadores, piscina, academia, rádio, saunas e acomodações acima da média mesmo para a terceira classe, o navio era também o mais luxuoso da história e tudo que envolveu sua construção e lançamento foi cercado de excitação.

Em 10 de Abril de 1912, o navio saiu de Southampton, Inglaterra, rumo à Nova York. Já nesse primeiro dia, a quase colisão com um rebocador gerou mais mídia em torno do lançamento. Alguns dos homens mais ricos do mundo estavam à bordo e centenas de imigrantes das mais variadas nacionalidades rumavam para a América nos salões inferiores.

Tudo acabou 4 dias depois, quando a colisão com um iceberg fez a maravilha da White Star se partir em dois e afundar, matando 1.517 das 2.223 pessoas a bordo. As leis de navegação foram mudadas, e o Titanic entrou para sempre no imaginário popular.

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Descoberta

Foi em 1985 que uma expedição franco-americana liderada pelo oceanógrafo Robert Ballard localizou os destroços do navio, a quatro mil metros de profundidade, no Atlântico Norte. Os 600 metros entre as duas metades do navio foram a descoberta mais significativa, já que na época do inquérito os depoimentos que falavam sobre a ruptura do casco foram desconsiderados (muito por pressão da White Star Line), e concluiu-se que o navio afundou inteiro. A descoberta dos destroços confirmou a quebra, e fez com que todos os filmes e livros sobre a tragédia ficassem datados, já que em todos eles o Titanic descia inteiro e quase vertical em direção às águas.

titanic4O espírito aventureiro de James Cameron já o tinha levado às profundezas em O Segredo do Abismo (1989), e explorar o navio mais famoso do mundo parecia uma idéia irresistível. Depois de convencer os executivos da FOX a bancar a idéia, já que a publicidade envolvida na exploração submarina já iria promover o filme, ele fez doze mergulhos em 1995, passando mais tempo no Titanic que os próprios passageiros. Lendo tudo sobre o navio e sua história, e com a ajuda de colecionadores e entusiastas da Titanic Historic Society, James estava pronto para contar sua história do modo mais hollywoodiano possível.

O roteiro

Segundo o próprio Cameron, a história do Titanic é uma espécie de novela da vida real. Há interesses políticos, disputa entre classes, famílias separadas, atos heróicos, mistérios, muito drama e desfecho climático. Assim, o roteiro do filme se preocupa em explorar esses pequenos causos do Titanic e os diversos estágios do naufrágio através de dois personagens fictícios, os jovens Jack Dawson e Rose DeWitt Bukater.

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Era preciso justificar os mergulhos e as cenas gravadas no verdadeiro Titanic, então a estética sci-fi de Cameron entrou em cena com um quadro moderno, onde exploradores vasculham os destroços à procura de um colar. As notícias sobre a expedição e a descoberta de um desenho fazem com que a velha Rose entre em contato com os exploradores para contar sua história…

84 anos antes, ela tinha 17 anos e embarcava na primeira classe do Titanic, rumo à America e a um casamento de conveniência. O coração do oceano, o colar que começou tudo, foi um presente de seu noivo, o ricaço Cal Hockley, que não tinha sutileza para perceber os sentimentos da noiva, que chegou a tentar o suicídio no navio. Foi aí, quase se atirando da popa, que ela conheceu o pobretão Jack.

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Nos poucos dias da viagem, eles se envolvem e amam, numa estrutura melodramática de moça rica com rapaz pobre que mesmo batida, é receita de sucesso. Os conflitos ficam pequenos quando o navio começa a afundar e a morte gelada vem chegando pouco a pouco, até o Titanic enfim sumir nas águas e na memória de Rose.

O interessante desses personagens é que eles estão o tempo todo indo e vindo pelo navio, tanto antes quanto durante o naufrágio, com a clara função de documentar o que estava acontecendo. Centrado nesse casal, o filme não faz como os outros filmes sobre a tragédia, com história paralelas de personagens de outras classes e destinos, que aqui aparecem como coadjuvantes da jornada surreal de Jack e Rose (não é possível que alguém fique subindo e descendo tantas vezes um navio que está afundando).

O filme

Com certeza, o maior acerto do filme está na reprodução do navio. Apesar do uso de modelos e efeitos em CGI ser abundante, James Cameron construiu uma réplica quase exata do Titanic, só para afundá-la lentamente e ir gravando a molhadeira.

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Além do navio-estúdio, partes separadas dos interiores foram replicadas em estúdios móveis sobre elevadores hidráulicos que podiam ser inclinados e inundados quantas vezes fosse preciso. Muitos dos milhões de dólares gastos pela produção foram na reprodução meticulosa de tudo que o Titanic continha, muitas vezes com a ajuda dos fabricantes originais, como foi o caso do tapete da sala de jantar da primeira classe, reproduzido pela primeira vez em quase noventa anos. Toda a louça e a prataria foi gravada com o emblema da White Star Line e mesmo os modelos e cenários contaram com a colaboração dos engenheiros da Harland and Wolff, que disponibilizaram plantas originais do Titanic.

Centenas de dublês participaram das filmagens, já que as cenas do naufrágio exigiam muito fisicamente, e mesmo os protagonistas tiveram que molhar a camisa, com a mocinha Kate Winslet sofrendo uma fissura no ombro e passando por alguns resfriados.

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Mania

O filme foi lançado em 19 de Dezembro de 1997, e arrecadou cerca de US$ 28 milhões no fim de semana de estréia. Apesar das festas de fim de ano, em pouco tempo as sessões começaram a esgotar e as estréias ao redor do mundo seguiam a tendência. Leonardo DiCaprio virou ídolo adolescente, enquanto mais e mais meninas iam ver e rever o filme em suas diversas sessões.

O fenômeno fez crescer o interesse pela tragédia, e o Titanic renasceu em exposições, documentários e livros ao redor do mundo. A música tema do filme, My Heart Will Go On, tocava à exaustão e os lucros eram astronômicos. Titanic tornou-se o filme de maior bilheteria na história do cinema (sem correção inflacionária), arrecadando mais de US$ 1.800.000.000.

A aclamação veio com as 14 indicações ao Oscar e os 11 prêmios, incluíndo melhor filme e melhor diretor para James Cameron, e melhor canção para My Heart Will Go On.

Todo esse sucesso teve um lado negativo, pois o fenômeno de popularidade fez com que críticas favoráveis ficassem mais amenas, pela aversão dos intelectuais ao consumo de massa. O fato é que desde a Golden Age do cinema nos anos 30 não se via tal comoção.

O filme ficou quase um ano em cartaz, chegando a ser relançado para cobrir fracassos de bilheteria de outros filmes (como o de Carla Perez aqui no Brasil…), e o sucesso se repetiu nas vendas em VHS (e posteriormente em DVD, quando foi lançada uma edição de colecionador em 1995).

Mesmo com toda a festa, o filme de Cameron é sem dúvida o mais completo dos filmes sobre o Titanic, pelo menos no visual. Pode ser que a história de Jack e Rose não seja a mais sofisticada do cinema, mas não é impossível no emaranhado de vidas unidas pela tragédia, e o filme provou que se uma história é poderosa o bastante, podemos ter a magia do cinema em seu máximo.

Agora, após o sucesso de Avatar, Cameron promete relançar Titanic em 3-D, em 2011. Esperto.

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Publicado por Fabricio Longo

Ator, autor e filósofo de ocasião, tenta aproveitar ao máximo sua paixão por livros e cinema, já que em pouco tempo será soterrado por suas coleções de bonecas, DVDs e quinquilharias da Mulher Maravilha e de "...E O Vento Levou".