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"Círculo de Fogo: A Revolta" fica aquém do antecessor, mas diverte

Eterno apaixonado por monstros, entre eles os gigantes que adoravam destruir o Japão nos anos 50 e 60, Guillermo del Toro pôde exacerbar este amor quando assumiu o projeto de “Circulo de Fogo”, no qual realizou uma obra que, se não era perfeita, conquistou uma legião de fãs graças ao seu excelente trabalho para tornar as lutas entre os Kaijus (como os japoneses chamam as gigantescas criaturas) e os Jaegers, robôs criados pelos humanos para combater essa ameaça. Apesar de deixar muita gente com um sorriso no rosto, o filme não foi um grande sucesso de bilheteria e a possibilidade de uma sequência parecia ser remota.
Mas, para a felicidade geral dos amantes do gênero, o cineasta (que ganhou este ano os quatro Oscars, incluindo os de Melhor Filme e Direção, por “A Forma da Água”) anunciou em 2014 que havia recebido um sinal verde para que fosse em frente para uma continuação.

O tempo passou e algumas coisas aconteceram. A produtora do filme, a Legendary Pictures, deixou a Warner Bros. e mudou-se para a Universal Pictures, o que fez com que alguns projetos ficassem suspensos por um tempo. Com isso, del Toro acabou deixando a direção, ficando apenas como produtor e consultor da sequência, que foi repassada para uma outra equipe criativa. Assim, um pouco depois da consagração do realizador de “A Forma da Água”, chega aos cinemas “Círculo de Fogo: A Revolta” (“Pacific Rim: Uprising”, EUA/2018), que apesar de trazer de volta vários elementos que marcaram o filme original, não chega ao mesmo nível alcançado na primeira parte e acaba se tornando um mero passatempo descartável, ainda que divertido na medida do possível.
Ambientada dez anos após os eventos do filme anterior, a trama acompanha Jake Pentecost (John Boyega), filho do lendário Stacker Pentecost (Idris Elba), que abandonou a Academia e vive de encontrar peças de Jaegers para comercializar no mercado negro de Los Angeles. Durante uma operação, ele acaba esbarrando na jovem Amara (Cailee Spaeny), um gênio precoce da mecânica, e os dois acabam se metendo em uma confusão com as autoridades. Para não ser preso, Jake aceita o pedido da meia-irmã, Mako Mori (Rinko Kikuchi) – agora uma oficial do alto escalão – e vai para o Moyulan Shatterdome, na China, para treinar uma nova geração de pilotos de Jaegers, chamados de cadetes, incluindo Amara.
Para isso, ele terá que conviver com seu ex-parceiro Nate Lambert (Scott Eastwood), e lidar com algumas mágoas desencadeadas por eventos do passado. Ao mesmo tempo, uma nova geração de robôs gigantes controlados por drones, criados por Liwen Shao (Jing Tian) e sua empresa, prometem revolucionar o combate aos Kaijus. Mas uma nova e inesperada ameaça surge e coloca Jake, Nate e os cadetes num conflito inesperado que pode decidir o futuro do planeta.

Embora ofereça uma dose generosa de cenas de ação, que certamente cairão no gosto de quem gosta de ver combates que não deixam (literalmente) pedra sobre pedra, “Círculo de Fogo: A Revolta” nunca chega a causar o impacto esperado. Talvez porque o diretor escolhido para essa sequência, Steven S. DeKinght (da série “Demolidor”, da Netflix), não consegue criar nenhum momento realmente marcante, limitando-se a fazer o que del Toro tinha feito antes (e melhor) no primeiro filme. Pelo menos, ele tornou as sequências de combate entre os Jaegers e os Kaijus bem claras e não são confusas, como Michael Bay adora fazer com seus filmes da franquia “Transformers”, que dão mais dor de cabeça do que satisfação ao assisti-las. Aqui, dá para entender tudo o que está acontecendo. Só faltou mais originalidade.
Outro problema do filme está no roteiro, escrito pelo diretor, ao lado de Emily Carmichael, Kira Snyder e T.S. Nowling. O texto é recheado de clichês e frases feitas, com situações chupadas de outros filmes, como as questões envolvendo os cadetes que lembram muito as mostradas em “Ender’s Game: O Jogo do Exterminador”. Além disso, faz com que personagens mudem de personalidade de uma hora para outra sem a menor cerimônia, especialmente a interpretada por Jing Tian, que se transforma radicalmente após uma simples alteração em seu penteado. Pelo menos, as reviravoltas na trama são interessantes e fazem sentido para que a história caminhe de maneira coerente.

Depois de se tornar mais conhecido como o Finn dos novos filmes da saga “Star Wars”, John Boyega até que não se sai mal como Jake e convence em relação aos conflitos que vive por se sentir à sombra do pai, assim como nos momentos em que precisa entrar em ação e mostra um bom entendimento com a novata Cailee Spaeny, que também parece ter um bom futuro no cinema. Já Scott Eastwood não consegue deixar de lado a sua canastrice e não soa convincente em nenhuma das cenas do filme, provando que vai ter que suar muito a camisa para ter um talento equivalente do pai, Clint Eastwood.
Adria Arjona, que interpreta a mecânica Jules, pouco tem a fazer e mais parece estar emulando a Letty de Michelle Rodriguez da série “Velozes e Furiosos”. Burn Gorman, que volta ao papel do Dr. Hermann Gottlieb, assim como Charlie Day, retornando como o Dr. Newton Geiszler, ainda sofrem com um humor pouco eficaz (um problema que já acontecia no primeiro filme). Mas pelo menos têm bons momentos quando ocorrem os combates entre os monstros e os robôs gigantes.
Com efeitos especiais irregulares, que ora tornam as cenas de batalha eficientes, ora deixam-nas mais artificiais do que deveriam, e uma trilha sonora não tão boa quanto à do filme original, “Círculo de Fogo: A Revolta” serve como entretenimento pouco memorável e só deve agradar mesmo ao público menos exigente ou aos fãs que preferem ver qualquer coisa deste universo do que não ver nada. Se houver uma terceira parte, quem sabe Guillermo del Toro não volta e põe ordem na casa? Até os Kaijus devem ficar felizes com o seu possível retorno.
Filme: Círculo de Fogo: A Revolta (Pacific Rim Uprising)
Direção: Steven S. DeKnight
Elenco: John Boyega, Scott Eastwood, Cailee Spaeny
Gênero: Ação e Aventura
País: EUA
Ano de produção: 2018
Distribuidora: Universal Pictures
Duração: 1h 51 min
Classificação: 12 anos

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