Um filme pode surgir como surge um prato de restaurante, isto é, seguindo uma receita? Quais são os ingredientes de um blockbuster ou de um ganhador de Oscar? São muitos os filmes formulaicos – talvez a maioria dos filmes seja formulaica -, construídos com os ingredientes do sucesso garantido e sem espaço para experimentações com temperos, ou melhor, com ousadias cinematográficas. As chanchadas eram formulaicas, da mesma forma que hoje o são as “neochanchadas”: aquelas comédias de riso fácil produzidas, em geral, pela Globo Filmes. Uma Pitada de Sorte é mais uma destas comédias que seguem a receita para agradar ao paladar do espectador.
Pérola (Fabiana Karla) se divide entre a obrigação familiar e o sonho pessoal. A obrigação é trabalhar na empresa de animação de festas infantis que vem passando de geração em geração em sua família. O sonho é abrir seu próprio restaurante, coisa para a qual se prepara trabalhando como sous chef – um nome chique para a ajudante do chef – em um restaurante no Rio de Janeiro, bastante distante de sua casa em Niterói. A dupla jornada não faz nada bem a ela.

Pérola é demitida ao inventar uma receita para servir ao chef Diego Gomez (Ivan Espeche), que tem um programa de televisão de sucesso. Diego gosta da ousadia de Pérola, mas quem não fica nem um pouco satisfeita com a inventiva é a executiva de TV Margô (Regiane Alves), que acompanhava Diego naquela noite. Logo após a demissão, os caminhos de Diego e Pérola se cruzam novamente. Incentivada pelo irmão mais novo, Fred (JP Rufino), Pérola se inscreve para o posto de ajudante de Diego no programa de TV – ajudante esta que os executivos do programa desejam que seja “um tipo popular”. Depois de muitos testes, Pérola é escolhida para o cargo, mas não conta nada para a mãe. Agora, ela tem de se desdobrar entre as gravações e as festas infantis, até o momento em que finalmente terá de fazer sua escolha.
Embora os personagens não sejam muito complexos, eles subvertem os arquétipos. O principal exemplo disso é Margô. À primeira vista, ela seria a grande antagonista do filme, estando ali apenas para transformar a vida de Pérola em um inferno através dos obstáculos que criaria. De fato, Margot fica de início reticente com a contratação de Pérola, mas passa a tratá-la bem e até a incentivá-la, mesmo que isso só aconteça porque Margô quer o sucesso do programa. No final – e isso não é spoiler – Margô inclusive se enxerga na batalhadora Pérola.
Outro ponto louvável de Uma Pitada de Sorte é que o roteiro foge das piadas fáceis. Não são feitas gracinhas referentes à aparência de Pérola, nem à origem nordestina da atriz Fabiana Karla. Além disso, Pérola tem não um, mas dois pares românticos: o chef Diego e o amigo taxista Lugão (Mouhamed Harfouch), um personagem hilário e adorável. Para dar mais naturalidade ao filme, foi permitida improvisação por parte do elenco – uma das melhores piadas, envolvendo Machado de Assis, foi improvisada.

O intérprete de Diego, Ivan Espeche, é um ator argentino que disse, na coletiva de imprensa do filme, que Uma Pitada de Sorte foi um divisor de águas para ele. Além de se livrar do portunhol para o papel, ele também aprendeu muito sobre a culinária e a cultura brasileiras. Além de Espeche, há outras participações mais que especiais no filme.
O diretor de Uma Pitada de Sorte, Pedro Antonio, tem ampla experiência com comédias. Publicitário de formação, começou atrás das câmeras nas séries cômicas de meia hora do canal a cabo Multishow para depois fazer sua transição para o cinema, dirigindo filmes como Um Tio Quase Perfeito 1 e 2. Pedro é filho da produtora Gláucia Camargos, e desenvolveu o roteiro do filme especialmente para Fabiana Karla. As filmagens aconteceram em 2017, mas o lançamento ocorreu só agora, após os tempos mais críticos da pandemia.
Como um restaurante, o cinema brasileiro depende mais do boca a boca do que da opinião dos críticos, embora esta, nas duas situações, seja sempre bem-vinda. Muitas vezes formulaico, mas seguindo a fórmula do sucesso, nosso cinema precisa mais do que nunca de um público que o prestigie, e ver Uma Pitada de Sorte não apenas ajuda nosso cinema, mas alimenta nosso espírito.
Nota: 7 de 10








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