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Crítica: “Em Um Pátio em Paris” expõe as chagas da crise europeia

A crise que se arrastou por seis anos na Europa e preguiçosamente começa a se dissipar, deixando marcas indeléveis no modus vivendi do continente. Não era de se estranhar que o cinema começasse a retratar o período bicudo e suas conseqüências de forma sintomática, como ocorreu, por exemplo no período pós-guerra. Se acredita-se em uma dicotomia que coloca filmes como “Os Intocáveis” e a estreia do fim de semana “Em Um Pátio em Paris” (Dans La Cour, França/2014), ela cai por terra se verificarmos que ambas as produções enxergam o problema, porém enquanto a primeira envereda pelo escapismo, a segunda opta por mostrar as chagas sem muitos recursos cosméticos.

Na trama, Antoine (Gustave Kervem) é um músico veterano e deprimido que, cansado da vida no meio artístico sem perspectivas, abandona sua banda de rock e decide procurar um emprego convencional. Devido a sua falta de formação e experiência no mercado de trabalho formal, ele se candidata a uma vaga de zelador em um condomínio em Paris e consegue, muito graças à afeição que gera na aposentada septuagenária Mathilde (Catherine Deneuve), também com forte tendência depressiva. Em meio a problemas banais e estruturais do condomínio, Atoine vai cada vez mais imergindo em seu estado de torpor regado a bebida e drogas.

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É neste microcosmo do condomínio onde Antoine mora e trabalha que o cineasta Pierre Salvadori (de “Uma Doce Mentira”) desenha sua metáfora da atual situação do velho continente. Os problemas estruturais do prédio, embates entre condôminos, que assim como os chefes de estado do continente devem resolver seus problemas em prol de combater um mal comum (no caso dos países, a recessão). E até mesmo o estado depressivo de Antoine e Mathilde, podem ser vistos como ilustração do estado de espírito dos habitantes dos países. Traçando um paralelo mais específico, Antoine seria a Grécia, desacreditada, sem rumo e pedindo por socorro; já Mathilde, com sua depressão progressiva e noção de realidade se dissipando seria a própria França, ciente do que é, do que fora e do poderia ter sido. Na passagem em que Antoine a leva ao lugar onde ela morou quando criança que resulta em uma revolta com os atuais moradores devido a alterações que fizeram na propriedade exemplifica bem isso. Da mesma forma que um habitante médio de uma grande cidade européia pode se sentir atingido pela profusão de imigrantes que além de mudarem o cenário, ainda, em tese, oneram o Estado e agravam a situação em tempos de crise.

Com muitas sombras, penumbras e ausência de trilha musical justamente para se coadunar com o contexto pouco animador de seus personagens, Salvadori realiza seu ensaio existencial sobre crise econômica, que desencadeia outra ainda mais aguda, a de identidade, sem a menor intenção de ser palatável, apesar de o elemento da comédia estar sutilmente presente no longa. É o cinema europeu e sua tradicional característica de encarar os problemas de frente, mesmo que de forma não tão agradável.

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