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Crítica: “Noite Sem Fim” fortalece Liam Neeson como o novo durão de Hollywood

Com Liam Neeson, de uns anos para cá, não tem jeito. Como eu já havia escrito, em 2012, sobre o interessante “A Perseguição”, o bom ator irlandês se tornou um chamariz para os fãs de filmes de ação, apesar da idade avançada. Tanto que, aos 62 anos, anunciou em março de 2015 que só pretende continuar no gênero por mais dois anos, segundo ele, se Deus deixar e estiver com boa saúde. Porém, isso parece pouco provável de acontecer pois, além de lançar no início deste ano “Busca Implacável 3” (que jurou que jamais faria), Neeson voltou a pegar em armas e chutar traseiros como poucos em “Noite Sem Fim” (“Run All Night”). O filme, embora tenha contornos mais dramáticos do que os que compuseram a franquia que o consagrou de vez, só reforça que o ator é, realmente, um dos melhores para produções deste tipo, já que seu talento dramático torna aceitável até momentos que poderiam parecer implausíveis com outros astros brucutus, com mais ou menos tempo de estrada.

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Na trama, Neeson vive Jimmy Conlon, um veterano mafioso irlandês que também ficou bastante conhecido por ser um matador profissional, que ganhou o apelido de “O Coveiro”. Atormentado por seus crimes do passado, ele acabou se afogando na bebida, embora conte com o apoio do chefão de crime Shawn Maguire (Ed Harris). Além disso, Jimmy sofre com a distância imposta pelo filho Michael (Joel Kinnaman), que tem vergonha da vida que o pai leva, a ponto de não querer nem que suas duas filhas (e mais um bebê está a caminho) saibam de sua existência. Só que Michael não esperava ser testemunha de um assassinato cometido por Danny Maguire (Boyd Holbrook), filho de Shawn, que tenta matá-lo em seguida. Jimmy acaba se metendo entre os dois e toma uma atitude extrema, causando a revolta no velho amigo, que passará por cima da amizade para ter a sua vingança. Assim, Jimmy faz o possível para evitar que Michael seja capturado pelos capangas de Shawn, que incluem mafiosos, policiais corruptos e o perigoso assassino Andrew Price (o ator e rapper Common, que foi um dos ganhadores do Oscar 2015 de melhor canção com a bela “Glory”, do filme “Selma: Uma Luta Pela Igualdade”) e tenta tirar o filho da cidade antes que o pior aconteça.

noite_sem_fim_foto4Embora tenha algumas ideias interessantes, como mostrar diversas regiões de Nova York (onde a trama se passa) através de efeitos especiais e truques de câmera para situar onde está cada personagem durante alguns momentos da história, a direção de Jaume Collet-Serra (em seu terceiro filme com Liam Neeson após “Desconhecido” e “Sem Escalas”) não faz nada de muito inovador para o gênero policial. O cineasta procurou dar um ritmo semelhante ao de produções da década de 1970, mas faltou dar um clima de tensão mais intenso para evidenciar o perigo que os protagonistas correm em qualquer parte da cidade. O único momento digno de nota é quando os dois assassinos profissionais se enfrentam dentro de um prédio em chamas, que está cercado pela polícia. Outro problema está no roteiro escrito por Brad Ingelsby (responsável pelo texto de“Tudo Por Justiça”), que usa diversos clichês de filmes de mafiosos e lembra, principalmente, o bem melhor “Estrada Para Perdição”, especialmente nas questões envolvendo pais criminosos e seus herdeiros, a amizade entre dois veteranos gângsters e até mesmo na criação do personagem de Common, que lembra (um pouco) o perseguidor de Tom Hanks no filme de Sam Mendes e foi interpretado por Jude Law. Se tivesse encontrado uma visão diferente e mais original, o resultado final seria bem mais interessante.

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No entanto, o que torna “Noite Sem Fim” um filme mais digno de nota é mesmo o seu elenco. Liam Neeson, como foi escrito lá no primeiro parágrafo, está mais do que adequado ao seu papel e transmite muito bem a angústia de seu personagem, que se tornou um solitário em nome de sua lealdade à “família” mafiosa e quer se reconciliar com o filho. Ed Harris, que também conta com uma longa ficha de serviços prestados ao cinema, está muito bem e, embora o roteiro não o ajude, consegue mostrar bem a personalidade multifacetada de Shawn, onde convence tanto em cenas em que parece realmente se importar com Jimmy, por conta da velha amizade, quanto nos momentos em que o mafioso se revela frio e implacável com quem comete erros. Joel Kinnaman, que foi o RoboCop do José Padilha, se apresenta de maneira correta, embora sua cara eternamente emburrada comprometa a sua atuação. O jovem Boyd Holbrook (que lembra muito Macaulay Culkin quando se envolveu com drogas) também se destaca como o instável filho de Shawn.  Já Common se limita a fazer caras e bocas para dar um ar misterioso para Price, mas sem sucesso. Vale destacar as participações de Vincent D’Onofrio (o soldado Pyle de “Nascido Para Matar” e o Wilson Fisk da série da Netflix “Demolidor”) como um policial que quer prender Jimmy há anos e Nick Nolte, que interpreta Eddie Conlon, um parente de Jimmy com seu tradicional vigor dramático.

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“Noite Sem Fim”, embora não vá se tornar um dos filmes mais memoráveis do ano de 2015, não deve deixar ninguém com raiva por ter ido ao cinema para vê-lo. A produção serve mais para deixar o nome de Liam Neeson ainda mais lembrado pelo grande público e pode até criar mais fãs para o veterano ator. Quem sabe, no futuro, ele consegue um papel mais digno para o seu talento e seja também lembrado como um bom ator dramático, como era antes de “Busca Implacável”? Bem, se isso não acontecer, ele ainda pode se tornar o novo Charles Bronson e estrelar o remake de “Desejo de Matar”. O jeito é ver o que o destino o reserva.

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