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Crítica: “O Vendedor de Passados” levanta boas questões, mas não as aprofunda

Definitivamente, o ser humano é um bicho estranho. Ele faz de tudo para ser aceito em sociedade e, para isso, procura esconder atitudes ou fatos que fazem parte de sua história, de preferência aqueles que considera vergonhosos. Portanto, é compreensível que muita gente gostaria que fosse possível “apagar” o seu passado e “reescrevê-lo” para algo mais belo e cativante, de modo que a mentira criada fosse mais poderosa do que a verdade. Partindo desse princípio, o escritor angolano José Eduardo Agualusa escreveu o livro “O Vendedor de Passados”, publicado no Brasil pela Gryphus Editora em 2004 e já está em sua terceira edição. A obra agora chega aos cinemas na adaptação comandada por Lula Buarque de Hollanda e o resultado final, embora seja interessante e divertido em alguns momentos peca por ficar no meio do caminho e desperdiça um ótimo argumento em seu terço final.

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A trama conta a história de Vicente (Lázaro Ramos), um especialista em criar passados falsos aos seus clientes com riqueza de detalhes, com vídeos, fotos, documentos, momentos íntimos, entre outras coisas para diversos objetivos, como arranjar um companheiro (ou companheira ideal) ou esconder questões que as pessoas não querem revelar. Um dia, Vicente recebe a visita de uma bela jovem (Alinne Moraes), que não lhe diz seu nome nem nada muito revelador. Ela pede que ele lhe crie um passado, mas com duas condições até então inéditas para Vicente: primeiro, ele teria total liberdade para elaborá-lo; segundo, neste passado, ela teria que ter cometido um crime. Encantado pela moça, Vicente aceita o desafio e realiza o trabalho, inclusive batizando-a de Clara, que vai embora logo após tudo ficar pronto. Mas o que ele não contava é de que Clara ressurgira em sua vida de maneira surpreendente e comprometeria seriamente seu ganha-pão e a sua vida também.

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“O Vendedor de Passados” tem até um bom desenvolvimento, graças à boa direção de Lula Buarque de Hollanda (de “Casseta e Planeta: A Taça do Mundo é Nossa”), que é correta, mas poderia ser mais ousada e ter mais garra, com o bom tema que tinha em mãos. As questões sobre verdade e mentira que os personagens contam poderiam ter um pouco mais de suspense para instigar o espectador, mas o cineasta preferiu dar um tom mais leve, que até funciona em alguns momentos, mas não em todos.

O roteiro de Isabel Muniz é feliz ao mostrar que até mesmo Vicente se vale de falsas histórias criadas a partir de seu material para se dar bem, especialmente para conquistar garotas, mas não se abre com ninguém verdadeiramente sobre si mesmo.

Porém, a roteirista parece ter perdido o fôlego após dois terços da trama e não tem mais nada para contar no terço final, o que causa uma grande decepção por não ir mais além do que é apresentado no filme e se preocupando apenas em justificar o seu desfecho.

Outro ponto negativo do filme é má escolha da trilha sonora, que parece inadequada em algumas sequências. A cena em que Vicente vai à uma festa e encontra um amigo, interpretado por Pedro Brício, é o melhor exemplo disso.

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Porém, o grande mérito de “O Vendedor de Passados” é mesmo o bom elenco. Lázaro Ramos realiza mais um bom trabalho como o protagonista, já que também foi exemplar em filmes como “O Homem que Copiava” e “Meu Tio Matou um Cara”, onde guarda algumas semelhanças, como o fato de ter sua vida virada de cabeça para baixo por uma mulher. Alinne Moraes mostra, a cada novo filme, que está amadurecendo como atriz e que pode fazer mais do que ser mocinha em novelas da TV. Aqui, ela faz no tom certo a enigmática Clara como uma sedutora e moderna femme fatale, que sabe como ter as coisas sob seu controle.

O veterano Odilon Wagner faz com competência o seu papel como o médico amigo de Vicente (aliás, o ator parece ter se especializado em ser um profissional de saúde em várias produções nos últimos anos). Vale destacar também Anderson Muller, que vive um ex-obeso louco em conseguir uma noiva, e Mayana Neiva, numa curta participação como a “noiva” do médico.

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Com um desfecho que poderia ser muito melhor elaborado para não dar uma sensação de frustração, “O Vendedor de Passados” vale como curiosidade. Mas poderia ter rendido bem mais em mãos mais habilidosas nestes tempos em que as pessoas acreditam em praticamente tudo que veem (especialmente na internet e nas redes sociais), sem avaliar ou checar suas fontes. Afinal, o que é mais poderoso: a mentira ou a verdade? Tirem suas conclusões.

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