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Crítica: "Tartarugas Ninja" voltam às telonas para resgatar a supremacia pop

Em meio à enxurrada de filmes resgatando franquias oitentistas para amplo consumo da garotada de hoje, como “G.I. Joe” e “Transformers”, é claro que as tartarugas mutantes adolescentes ninja não poderiam ficar de fora da fe($)sta. Após o resultado morno da primeira tentativa de ressuscitar a franquia em 2007 com uma animação 3D, chega a vez de uma adaptação mais ambiciosa, produzida por Michael Bay (responsável pela série “Transformers”), dirigida pelo sul africano Jonathan Liebesman (“Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles” e “Duelo de Titãs 2”) e estrelada por Megan Fox (“Transformers 1 e 2”).
“As Tartarugas Ninja” (“Teenage Mutant Ninja Turtles”, E.U.A/2014) é a primeira adaptação live action para os cinemas dos personagens criados há 30 anos por Kevin Eastman e Peter Laird, vinte e um anos após o fim da famigerada trilogia dos anos noventa, que pegava carona no sucesso do desenho da TV. A trama não foge muito (na verdade nada) do que já sabemos sobre os personagens.
April O’Neil (Fox), uma repórter em busca de um furo de notícia que a livre das reportagens chinfrins que é sempre obrigada a fazer para o Canal 6, vai investigar as atividades do temido Clã do Pé, uma quadrilha terrorista de peritos em artes marciais que ameaça Nova York. Durante uma operação dos bandidos, ela presencia a ação das quatro tartarugas mutantes: Leonardo, Michelangelo, Donatello e Raphael. Por ser a única a ter contato com as criaturas, ela se junta a eles para auxiliar na tarefa de impedir os planos de Eric Sacks (William Fichtner), um grande industrial químico que tem um plano de destruição megalômano contra a Big Apple, com o auxílio do líder do Clã, o Destruidor (Tohoru Masamune).
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Apesar de ser o dono da bola, Michael Bay, que tem fama de mandão, deixa o diretor Liebesman com uma liberdade maior do que se esperava para comandar a película. Não temos, por exemplo, as bandeiras americanas tremulando, pôr do sol, contra luz e explosões a todo momento, marcas registradas dos filmes de Bay. Só câmera lenta, mas nas cenas de ação, para dar uma alternância ao ritmo das lutas ou perseguições, e não para criar um clima “épico-clichê”.
O que se vê de Bay está no conceito visual das tartarugas que segue a mesma estética realista dos transformers. Da mesma maneira que vemos os robôs que se transformam em carros como seriam “de verdade”, em Tartarugas o visual dos quelônios também é fiel ao que seria de uma tartaruga antropomórfica real, mas o excesso de detalhes de texturas, somados aos apetrechos e adereços que remetem à indumentária de guerreiros orientais mesclados com elementos contemporâneos urbanos causam a mesma sensação de excesso de informação visual que temos com os robôs da franquia bilionária. Isso também se aplica ao Destruidor, que mais parece um misto de Samurai de Prata com Megatron. Contudo, os quelônios digitais funcionam melhor no filme finalizado do que nos trailers e nas fotos vistos anteriormente. Certamente deram uma bela caprichada na pós-produção.
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Tanto no conceito visual, que inclui a acertada direção de arte assinada por Miguel Lopez Castillo (da série “Pan Am”, e assistente de direção de arte de “O Espetacular Homem-Aranha”) e Scott P. Murphy (“Família Soprano” e “Battleship – A Batalha dos Mares”), quanto no roteiro de autoria da dupla Joseph Appelbaum e André Nemec (de “Missão: Impossível – Protocolo Fantasma” e da série “Alias”) e de Evan Daugherty (de “Branca de Neve e O Caçador” e “Divergente”), o que se nota é o desiderato de unir o clima sombrio dos quadrinhos de forma moderada a um pouco leveza da série animada, para que o resultado não fosse nem algo muito violento que exigisse uma censura mais alta, e nem demasiadamente infantil, afastando os adolescentes e os fãs antigos, hoje na casa dos trinta anos. Lograram êxito em parte. Há homenagens ao desenho da TV, às HQs, referências engraçadinhas à cultura pop – como em um momento em que Donatello confessa que não entendeu o final de Lost – e até algumas piadas de humor negro que se aproximam das proferidas nos quadrinhos.
As cenas de ação são bem executadas (com destaque para a perseguição na neve, que felizmente o trailer não entregou praticamente nada) e as lutas muito bem coreografadas, como o duelo entre o Mestre Splinter e o Destruidor. Inclusive vemos lutas de bastante impacto, embora sem uma gota de sangue. Por causa da censura, só os golpes desferidos com bastão e nunchaku são mostrados. As armas perfurocortantes como a dupla espada de Leonardo e a faca de três pontas de Raphael não são vistas finalizando inimigos, apenas rebatendo e defendendo. A origem dos personagens está ligeiramente alterada em relação às HQs, mas não chega a comprometer (não, as tartarugas não são alienígenas como andaram espalhando).
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A parte meio vazia do copo fica por conta de algumas piadas infantis que acabaram escapando entre as mais espertas e não funcionam, coadjuvantes subaproveitados, como a chefe de April vivida por Whoopi Goldberg, ou desnecessários como o mala Vernon (Will Arnett), mais infeliz do que no desenho. Isso além de alguns furos na trama (blockbusters costumam ter mais furos que queijo suíço).
Outra semelhança com Transformers que se pode notar – o filme segue a mesma lógica do primeiro dos robôs não apenas no conceito visual, mas na estrutura narrativa – é que a trama é centrada no personagem humano, fazendo escada para os heróis. A April de Megan Fox aqui faz as vezes do Sam Witwicky de Shia LaBeouf, só que com mais protagonismo ainda, roubando mais do que deveria os holofotes das personagens título. Embora suas personalidades individuais estejam bem claras e fiéis ao cânone (Leo, o líder; Donnie, o gênio; Mike, o piadista e Ralph o raivoso) acaba não sobrando muito espaço para os quatro brilharem na mesma medida que a bela, e até mesmo entre si. Leonardo (dublado pelo “Jackass” Johnny Knoxville), que deveria ser o pivô, fica apagado. Michelangelo é a tartaruga que mais tem destaque, seguido de Raphael.
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Quanto à parte de efeitos especiais, tudo está irretocável. A técnica de motion capture evolui a olhos vistos como se pode conferir em “O Planeta dos Macacos: O Confronto”. Os movimentos faciais são críveis, os personagens têm peso, presença que podem ser quase que sentidos. E ao contrário de “Godzilla”, que mostrava os monstros sempre no escuro ou envoltos em neblina, aqui as tartarugas são mostradas às claras e com nitidez, muitas vezes em tomadas externas diurnas.
E um dado relevante na ficha técnica para o público brasileiro é que a direção de fotografia ficou a cargo do nosso Lula Carvalho – parceiro de José Padilha em Tropa de Elite 1 e 2 e “Robocop” – que realiza aqui mais um eficiente trabalho.
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Por fim, as Tartarugas à moda Michael Bay até têm potencial para agradar à nova geração, mas vai deixar frustrados os fãs mais velhos que ainda sonham em ver os quelônios na telona em uma história realmente fiel ao espírito dos quadrinhos em preto e branco da Mirage Comics. Este aqui ficou apenas no meio do caminho. O apelo comercial deixado pela série animada é irresistível demais para se arriscar em algo que pode não vender brinquedos. O segundo filme, que já ganhou sinal verde, certamente seguirá a mesma verve. Quem sabe no próximo reboot?

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