Um santo vizinho
AcervoCríticasFilmes

Crítica: “Um Santo Vizinho” traz novo personagem marcante à galeria de Bill Murray

Vincent MacKenna é um sujeito irascível. No primeiro take de “Um Santo Vizinho” (St Vincent EUA/2014) isso já fica bastante evidente para o espectador. Assim como fica claro que, apesar de difícil, trata-se de uma figura cativante, aquele anti-herói que adoramos acompanhar apesar dos defeitos. Na verdade o adoramos justamente pelos defeitos.

Na comédia politicamente incorreta do estreante em longas metragens Theodore Melfi, Vincent (Bill Murray) é um sexagenário ranzinza que leva a vida às voltas com jogatina, bebida alcoólica em excesso e garotas de programa, em especial com Daka (Naomi Watts) que está grávida e é procurada justamente pelo peculiar fetiche de transar com uma gestante. Até que em um belo dia cruzam em seu caminho os novos vizinhos: o garoto Oliver (Jaeden Lieberher) e sua mãe divorciada Maggie (Melissa McCarthy). Devido à puxada jornada de trabalho de Maggie, o garoto fica sob os cuidados de Vincent, que lhe apresenta seu estilo de vida inadequado sem a menor culpa, em contraste com a escola católica onde o menino está matriculado por ser, em tese a melhor, não necessariamente por questões religiosas (ele é judeu).

Um dos maiores trunfos de “Um Santo Vizinho” é a abordagem do protagonista tão despida de julgamentos e moralismos que faz com que nos sintamos de alguma forma bastante à vontade com nosso próprio lado obscuro, pois não é ele que nos fará menos valiosos. Somos apenas humanos. Se em “Um Dia de Fúria” o personagem de Michael Douglas ganhou uma “desculpa” por sua revolta contra o cotidiano (descobre-se no avançar do filme que ele sofre de desequilíbrio) como forma de abrandar o caráter anárquico do roteiro, aqui, talvez por se tratar de uma produção quase independente, não há nada para justificar a ranhetice e falta de apreço pelo semelhante de Vincent: ele é assim e pronto. Mas a convivência com Oliver de certa forma mexe com ele, assim como também acaba sendo benéfica para o menino.

Indicado ao Globo de Ouro e ignorado no prêmio da Academia de Hollywood, Bill Murray está impagável neste que entrará no rol dos personagens marcantes de sua carreira. A cara não muito simpática de Murray é uma ferramenta de grande utilidade para compor esses tipos. Basta lembrar, por exemplo, do Frank Cross em “Os Fantasmas Contra- Atacam”, ou o inesquecível repórter que fica preso no mesmo dia em “O Feitiço do Tempo”. São dois tipos deploráveis que acabam mudando pela lição que tiram da situação. Os personagens coadjuvantes também têm seu brilho, especialmente Meggie, que traz Melissa McCarthy em um papel mais perto do drama do que da comédia que nos acostumamos a vê-la e Chris O’Dowd como o irmão Geraghty, o professor da escola de Oliver que apesar de colocar a religião católica como a mais importante, o faz de forma meio cínica, que dá a entender que no fundo acha que aquilo não faz muito sentido. É hilário o momento em que diz, na chegada de Oliver à escola: “Nós celebramos todas as religiões do mundo nesta sala, Oliver. Eu sou um católico, que é a melhor de todas as religiões, realmente, porque nós temos o maior número de regras. E as melhores roupas. Mas entre nós, há também um budista, agnóstico, temos um batista, e temos um ‘eu não sei’ , o que parece ser a religião que mais cresce no mundo.”

O roteiro, também assinado por Melfi, é redondo, traz diálogos certeiros e dá frescor a uma premissa já um tanto batida do sujeito complicado que lááá no fundo tem um lado bom. O único deslize é no terço final, que acaba resvalando no sentimentalismo hollywoodiano incongruente com o tom do filme como um todo.

Por fim, a moral da história parece ser: desconfie de pessoas muito bem resolvidas e de bem com ávida o tempo todo, dê uma olhada para os fechados, antipáticos, “difíceis”, pois dali pode-se extrair pérolas. Faz bastante sentido.

 

Deixe um comentário

Sugeridos
Festival do Rio
AgendaFestivaisFilmes

Destaques do Festival do Rio, dia 6 de outubro.

A estreia da série documental Marília Mendonça: Sentimento Louco, da diretora Susanna...

Feito Pipa
FilmesNotíciasPremiações

Brasil escolhe Feito Pipa para concorrer ao Oscar

O cenário cinematográfico brasileiro vive um momento marcante de renovação. O longa-metragem...

Sp criancas passeio cinema b32 up 01
AgendaFilmesInfantil

Cine Concerto apresenta UP: Altas Aventuras

Uma jornada emocionante que une o filme e a execução ao vivo de...

A Bola Preta
CríticasFilmes

Festival do Rio 2026 – “A Bola Preta” e o Peso da Memória Apagada

Há algo de profundamente mágico na atmosfera do Cinema Odeon durante a...

Cartas Amarelas Derya (Özgü Namal) e Aziz (Tansu Biçer) crédito Ella Knorz Autoral Filmes (3)
AgendaFestivaisFilmes

‘Cartas Amarelas’, vencedor de Berlim, no Festival do Rio

Dois longas da Autoral Filmes são destaques no Festival do Rio deste...

GOnzaguinha é
CríticasTeatro

“Gonzaguinha é” retrata o “Pescador de Ilusões” no Rio

Há de se celebrar, sempre, um artista como Gonzaguinha e sua obra,...

Ebenezer e os Fantasmas do Natal
FilmesTrailersVideos

Johnny Depp em novo trailer de ‘Ebenezer e os Fantasmas do Natal’

“Ebenezer e os Fantasmas do Natal” acaba de ganhar um trailer inédito...

Realm of Ink
CríticasGames

Realm of Ink: Em nanquim com um pet pra chamar de seu

Não dá pra falar de Realm of Ink sem lembrar de Hades....

Star Wars saga novidades Ambrosia
FilmesNotícias

O que já sabemos sobre a nova trilogia Star Wars

Lucasfilm foca em nova geração de protagonistas sob o comando do roteirista...

Pedro the lion show brasil sao paulo ambrosiacombr
CríticasMúsica

Resenha: Pedro the Lion faz seu primeiro show no Brasil

A estreia de Pedro the Lion em São Paulo e no Brasil,...