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De Pernas Pro Ar: Nem liberal, nem pertinente

Com seus respeitáveis dois milhões de espectadores, De Pernas pro Ar confirma que janeiro é mesmo um mês excelente para o cinema nacional. Confirma também que isso se impõe não importando a qualidade da “atração”.

De cara já temos de levar em conta que este filme foi feito a partir de uma ideia pré-determinada pela produtora (fato muito comum nos blockbusters americanos) e sua premissa já engatinha para se tornar uma série regular na TV. A produção, dirigida por Roberto Santucci, fala de uma ex-executiva (Ingrid Guimarães) que nunca teve orgasmo e descobre que pode ganhar dinheiro investindo numa Sex Shop, trazendo com isso o tal prazer sexual. Isso se dá quando se aproxima de uma vizinha (Maria Paula) que até então abominava, por considerá-la de baixo nível.

As situações seguem o arquétipos das comédias de situação americanas, o que não é nenhum problema se houvesse legitimidade nisso. Não sou dos que abominam a comédia (a total aversão da Academia do Oscar ao gênero é uma coisa que me irrita historicamente) mas quando o gênero é substituído por modelos de narrativa o resultado é sempre lamentável. Tanto que minha avaliação me obriga a cair no clichê de dizer que o filme é uma série de TV estendida.

Ainda que Ingrid tenha um feeling preciso para este tipo de “produto” é visível que a tentativa de cinema se esvai na aptidão do projeto para TV. E até interessante.

Nem no seu discurso ele é assertivo, uma vez que o conservadorismo de um roteiro que se estabelece por semi esquetes deixa toda concepção de seu argumento em segundo plano, onde a libertação sexual da mulher está condicionada ao modelo social arcaico de vida.

O filme pode até fazer rir – no cinema em que assisti, num lugar frequentado por um público dito exigente, pareciam se divertir – mas trata-se de uma gargalhada tão previsível como a cena na tela. Cheguei a ouvir pessoas adivinhando o que veria a seguir, por já estarem tão acostumados com os vícios de um produto como esses.

Não há problemas em investir na despretensão (o cineasta gaúcho Jorge Furtado é mestre nisso) mas o cinema dito comercial brasileiro precisa trocar o recorrente senso de oportunidade pelo senso do ridículo.

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  1. Gostei muito do seu post. Concordo quando você diz que as esquetes tomam o lugar o lugar do argumento. Acredito que isso se dê principalmente porque um argumento bem-estruturado como esse e realmente explícito não sairia do papel, comercialmente falando.

    Sobre a produção do filme posso dizer que a produtora do filme, Mariza Leão, é dona da Morena Filmes e que ela também fez o argumento do próprio filme. Então acredito eu que, este filme, foi pensado e criado comercialmente para depois de um argumento estruturado pelos produtores, alguns roteiristas terminassem o trabalho.

    O que é uma pena pois o resultado está aí nas telas, um filme convencional, tradicional, sem expectativas, com uma fotografia pouco expressiva e uma captação e edição de som horrível, onde se escutam ecos de quartos ou outros ruídos que produzem um efeito 'molhado', de qualidade inferior. Infelizmente cinema brasileiro comercial investe mais em divulgação, distribuição e pouco em arte, som, fotografia…

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