Filme estrelado por Ryan Gosling aposta no encanto e na aventura espacial, mas nem sempre alcança a profundidade científica que promete
Devoradores de Estrelas (The Hail Mary Project) tem como premissa o risco da extinção, tema que exerce uma atração atávica sobre o público. A aniquilação do nosso mundo, ou mesmo a ameaça de sua extinção, já foi explorada diversas vezes na literatura e no cinema, ora gerando obras espetaculosas como Independence Day, ora produções mais intimistas, como esta se propõe a ser — ainda que tenha ambição grandiosa tanto na estética (foi filmado em IMAX) quanto na substância, valendo-se de pura ciência (como em Interestelar, de Christopher Nolan) para dar mais tangibilidade à história.
Na trama, acompanhamos a improvável missão de Ryland Grace, personagem vivido por Ryan Gosling. Professor de ciências do ensino fundamental, ele desperta sozinho dentro de uma nave espacial, a anos-luz da Terra e sem qualquer lembrança de sua identidade ou de como chegou ali. À medida que sua memória retorna, Ryland descobre ter sido recrutado para uma operação extrema: viajar pelo espaço profundo para investigar um fenômeno capaz de extinguir o Sol — e, consequentemente, toda a vida no planeta. Confiando apenas em sua inteligência e em seus conhecimentos científicos, ele precisa solucionar o mistério antes que seja tarde demais. O que começa como uma jornada solitária, porém, acaba tomando um rumo inesperado quando surge uma parceria improvável no caminho.

Sim, pela sinopse tudo parece um tanto inverossímil. Ainda que com amparo na ciência, muitas soluções soam pouco críveis, dado o pouco espaço de tempo para explicá-las devidamente. Com receio de parecer excessivamente explicativo, o roteiro de Drew Goddard (Perdido em Marte) opta pelo encantamento e por um clima caloroso no melhor estilo “sessão da tarde”. É aí que os diretores Phil Lord e Christopher Miller (Uma Aventura Lego) se esbaldam.
O livro de Andy Weir, que foi adaptado nesta produção, dedica muito mais tempo a tornar tudo plausível e, ao longo de suas 2h37, seria possível oferecer explicações mais satisfatórias sem cair no didatismo. Fica claro que o roteirista preferiu focar no lado mais emotivo, remetendo a obras de Steven Spielberg e a filmes de fantasia dos anos 1980 — inclusive há várias referências ao cinema desse período. No entanto, nem sempre isso se alinha à ambição de se posicionar na mesma esfera de Interstelar ou A Chegada. Há, inclusive, alusões a 2001: Uma Odisseia no Espaço, como ocorre em praticamente todo longa de ficção científica com maiores pretensões artísticas. Todavia, essa alternância de tons acaba produzindo, por vezes, um efeito quase esquizofrênico.
Há de se reconhecer o mérito de Ryan Gosling. O ator carrega o filme com carisma, gerando empatia com o espectador e não deixando dúvidas de que se divertiu com o projeto. Gosling transita entre a segurança, a humanidade, a galhofa e o lado sentimental sem resvalar na pieguice — tudo com uma fluidez e organicidade que fazem dele, de fato, o grande trunfo do filme. Para os fãs de Star Wars, assisti-lo aqui é um alívio, pois tudo indica que a missão de protagonizar o vindouro longa Starfighter será muito bem cumprida. O restante do elenco também se sai bem, com destaque para Sandra Hüller, que interpreta a líder do projeto com escrúpulos um tanto duvidosos (no livro, a personagem tem contornos de vilã ainda mais acentuados). Ela rouba cada cena em que aparece, com a mesma altivez vista em Anatomia de uma Queda.

Por fim, Devoradores de Estrelas, encarado como um entretenimento consistente e respeitoso com o espectador, é bem-sucedido — embora deixe a desejar na promessa de uma ficção científica mais rebuscada. No balanço final, o saldo é positivo, configurando mais um acerto da dupla Chris Miller e Phil Lord.








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