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Verdade e Traição: a cinebiografia de um jovem mártir

Verdade e traição dest

Hamburgo, Alemanha. Primavera de 1941. Uma época em que saudações nazistas eram repetidas em igrejas, que ataques aéreos interrompiam idílicos jantares em família, que um ato de resistência era dar um soco num membro da Juventude Hitlerista, enfim, tempos difíceis. Mas houve quem ousou sonhar e falar a verdade para mudar a realidade. Helmuth Hübener foi um deles. “Verdade e Traição” é sua cinebiografia.

Quatro jovens amigos levam a vida alegremente. Helmuth (Ewan Horrocks), adolescente prodígio que foi o mais jovem estagiário já contratado pela prefeitura, ganha do irmão mais velho, combatente na França, um rádio de ondas curtas, no qual é possível sintonizar emissoras proibidas pelo Reich. Sua preferida é a BBC, e inspirado pelo que ouve ele passa a fazer panfletos contra Hitler, distribuindo-os após o toque de recolher. Após a captura de um dos amigos, Salomon (Nye Occomore), por ter ascendência judia, a vontade de denunciar o regime fica mais forte e Helmuth envolve os outros dois amigos, Karl e Rudi, na perigosa atividade.

Verdade e traição

A censura da arte é parte central da trama. Mais de uma vez Helmuth declara sua admiração por Felix Mendelssohn, compositor de ópera cuja obra estava proibida de ser executada porque ele era judeu. A censura é ingrediente principal nos regimes totalitários, seja pela origem do artista ou, mais comumente, por sua filiação partidária ou visão política.

Lealdade e traição são antônimos, mas também temas muito caros em regimes totalitários. Lealdade à pátria, ao líder, a um ideal. Traição como crime gravíssimo se for contra ao que se deve ser leal, mas bem-vinda quando denuncia algum opositor do regime. Em todo momento em “Verdade e Traição” ficamos tensos imaginando quem será o traidor: um dos amigos? O padrasto de Helmuth, Hugo? Sua namoradinha, Elli? E, se for pego, Helmuth trairá os amigos?

Verdade e traição

O filme foi rodado na Lituânia, um país com modesta tradição cinematográfica. O primeiro cinema do país foi aberto em 1906 e os primeiros filmes de lituanos datam de 1909. Em alguns pontos foi pioneiro, como com a inauguração da primeira escola de cinema em 1926. O país ficou sob comando soviético por 50 anos a partir de 1940 e a supervisão da atividade cinematográfica era constante, o que inclusive levou o famoso cineasta Jonas Mekas a sair do país. Depois de uma época de domínio dos pequenos estúdios após a independência, nos últimos anos a Lituânia vem atraindo diversas produções estrangeiras para filmar em seu solo, sendo uma das principais a minissérie da HBO “Chernobyl”.

A violência gráfica no filme impressiona. Todo espancamento gera uma quantidade razoável de sangue. Na marca de dez minutos, surge um homem sendo torturado no pau-de-arara, técnica idêntica à utilizada na ditadura militar brasileira (1964-1985). A tortura física se reveza com a psicológica em nome de um ridículo ideal maior: proteger a pátria e o Führer.

Helmuth Hübener foi uma pessoa real. Sua história se destaca por saber o que era certo, apesar de arriscadíssimo, ainda muito jovem. Há muitas semelhanças com os membros do movimento Rosa Branca: assim como Helmuth, eram jovens estudantes movidos pela busca da verdade e pela fé, distribuindo panfletos antinazistas em caixas de correios. Tão semelhante eram que esta frase de Sophie Scholl, uma das lideranças da Rosa Branca, poderia muito bem ter sido dita por Helmuth Hübener: “o que escrevemos e falamos é o que muitas pessoas pensam, mas não têm coragem de dizer”. E aqui cabe mais uma citação, de Ésquilo: “Numa guerra, a primeira vítima é a verdade”. Quem ousa mantê-la viva é um verdadeiro herói.

Verdade e Traição

Verdade e Traição
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Nota: 7/10 - Ótimo
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