Pois é, sintam-se velhos, há exatamente dez anos atrás estreiava por aqui o primeiro episódio da nova trilogia de Star Wars (lá fora no dia 19 de maio), na época um fenômeno nunca visto nos cinemas, com pessoas acampando por dois meses na fila dos cinemas. É de se imaginar se elas fariam de novo tendo consciência da qualidade cinematográfica do primeiro episódio da saga.
É importante darmos atenção a imensa dificuldade que é estabelecer uma nova trilogia do que é em grande parte a mais amada franquia dos cinemas, a coisa se torna ainda pior quando esta nova trilogia se passa em um período anterior, o que coloca sobre ela uma série de requerimentos em termos de roteiro e mina completamente com boa parte do suspense. George Lucas foi corajoso em assumir esse trabalho, principalmente quando sua incapacidade como diretor é um conhecimento geral até entre os fãs (alguém aí não prefere “o império contra-ataca” de Irving Keshner?).
Com a nova trilogia, tivemos filmes bastante díspares, que variaram do fraco episódio I, um mediano “Ataque dos Clones” e um terceiro filme excelente (mesmo mantendo alguns problemas pertinentes a versão moderna de Star Wars). Vale lembrar também que apesar das críticas, os novos episódios serviram de plataforma para as gerações mais jovens conhecerem três clássicos que marcaram completamente o cinema do século XX.
Para comemorar os dez anos que a “Ameaça Fantasma” acaba de completar (sempre achei o título “The Phantom Menance” o melhor da série, ainda que o filme não consiga fazer jus a ele), o Ambrosia preparou duas pequenas listas onde discutimos o que aconteceu de melhor (e de pior) na nova trilogia de Star Wars:
As dez piores coisas na nova trilogia:
10 – Darth Maul era apenas um dublê:
Ok, vamos lá, nós sabemos que o visual dele é fantástico, assim como o seu sabre duplo e suas cenas de luta, mas o resto é simplesmente bobo. Ao que parece George Lucas queria fazer aqui um novo Boba Fett, ou seja, um vilão que faz o tipo calado e misterioso. Isso funcionou com o mercenário na trilogia clássica por que ele cumpria um papel secundário. Não dá para colocarmos um sujeito assim como vilão principal. Não só Darth Maul só tem uma fala no filme inteiro, como ele é derrotado pelo Padawan Obi-Wan Kenobi. Sabemos que o fato dele ser interpretado por Ray Park, um dublê sem habilidades interpretativas já nos faz não esperar muito do personagem, que tem mais falas no trailer (por algum motivo bizarro o trailer apresenta uma narração em off do Darth Maul) do que no filme. Lucas deveria se lembrar que em um filme que tem como personagem mais famoso e importante Darth Vader, era no mínimo necessário ter um vilão melhor (já que Palpatine era apenas uma ameaça fantasma no episódio I).
9 – Jar Jar Binks, o Pateta:
Não dá nem para escrever muito sobre esse ponto que já não seja óbvio, Jar Jar Binks foi uma escolha infeliz do diretor. O personagem além de irritante é um insulto a inteligência do espectador (com os seus “acidentes” que ajudam os mocinhos). Felizmente, George Lucas mostrou ser capaz de ouvir aos fãs e acabou com o personagem, que teve cerca de três falas no episódio II e nenhuma na “Vingança dos Siths”.
8 – A força é um resfriado?
Outro ponto que foi ignorado por George Lucas e pelo universo expandido depois que foi rejeitado pelo público. Midichlorians. Ninguém precisava ouvir uma explicação pseudo-científica do uso da força. Estava todo mundo muito feliz quando ela era apenas um conceito panteísta do misticismo oriental, felizmente ela acabou voltando a ser isso nos demais episódios. Não existe explicação melhor para a força do que aquelas dadas por Yoda e Obi-Wan na trilogia clássica, poesia pura.
7 – CGI demais:
Temos que admitir que a nova trilogia é muito bonita visualmente (até entrou na lista das melhores coisas), mas alguns efeitos ficaram artificiais demais. Sets quase 100% digitais (ok a nova trilogia praticamente inventou o cinema digital que é cânone hoje em dia, o que é bem legal) resultaram para muitas cenas em um aspecto de artificialidade que incomoda. Muitos dos efeitos parecem realmente terem sido feitos por comodismo, pois poderiam facilmente ter ganhado replicas reais ao invés de efeitos de computador. Na nova trilogia inteira ninguém usou um uniforme sequer de Clone Trooper, eram todos feitos de animação.
6 – A Guerra dos bons contra os maus:
George Lucas perdeu uma ótima oportunidade de adicionar ambigüidade aqui. Quando Obi-Wan é capturado pelo excelente Conde Dooku, líder do movimento separatista, ele tenta convencer o jovem jedi que a república estaria sendo corrompida por um Sith e que em seu movimento está a única chance de paz da galáxia. Sabemos nesse momento que Dooku está falando a verdade, mas descobrimos depois que ele é de fato mau e que segue diretamente as ordens de Darth Sidious. Não seria muito mais interessante se ele tivesse sido manipulado por Palpatine e verdadeiramente acreditasse em seus ideais? Teríamos uma guerra dos clones onde os dois lados estão lutando pelo que acreditam, e pior ainda, o lado da república é onde repousa o verdadeiro mau (o que de fato aconteceu). Acho que uma camada de cinza não faz mal a ninguém.
5 – Andamento de Cenas:
Todos os três filmes (o terceiro um pouco menos) parecem sofrer com um mau andamento de cenas. No primeiro temos uma ação repetitiva e pouco inteligente que permeia os quarenta minutos iniciais. As cenas sem ação já soam arrastadas demais e se fazem tão cansativas quantos os pulos. A história dos filmes é boa, todos sabemos que Lucas tem idéias fantásticas em termos plot e narrativa, mas sua atuação como diretor falha miseravelmente por aqui também. Como, por exemplo, a total destruição do clímax do episódio II ao vermos o Yoda usando um sabre de luz de forma ridícula.
4 – Anakin Skywalker é um exterminador???
Ele não é o Gorvenator, ou o escolhido (até é, mas não é a porcaria do Keannu Reaves daquele lixo de Trilogia), mas atua tão mal quanto. Não importa a idade do personagem, tanto o pequeno Jake Llyod quanto Hayden Christensen, não conseguiram fazer jus ao papel que interpretaram. Christensen até tem alguns poucos momentos de brilho, como quando confessa ter matado todos os Tusken raiders, ou quando vira o Darth Vader (sem armadura) no meio do episódio III, mas no geral sua atuação com o personagem chega a ser irritante.
3 – Personagens Rasos:
Muitos personagens da nova trilogia acabaram ficando mal desenvolvidos. Não é possível enxergar neles profundidade emocional, anseios, trejeitos e etc… E isso permeia inclusive alguns dos principais como Amidala. O problema é crítico no episódio I (onde todos os personagens menos Quin-Gon Jinn sofrem desse mal), mas permeia em menor instância os demais episódios da saga. Veja bem, os personagens novos não são ruins, pelo contrário até, eles são excelentes, mas deveriam ter sido mais bem aprofundados.
2 – Romance brega e sem química:
Mais um dos problemas de se fazer uma história anterior aos demais filmes. O romance entre Anakin e Padmé tinha que acontecer. A coisa toda não foi bem desenvolvida e o casal de atores não possui muita química juntos. As cenas de amor beiram do forçado ao completamente ridículo. Mesmo já tendo provado que é um bom escritor, Lucas não sabe escrever diálogos românticos que visivelmente estão em um nível muito abaixo de todas as outras falas da saga. Se não fossem algumas dessas linhas de diálogo bregas no episódio III o filme seria quase perfeito (quero dizer, na altura de um episódio V).
1 – Má direção de atores:
Por fim, o maior problema da nova trilogia, a má direção de atores. Não tenho muito que dizer aqui, assista o filme e comprove. Veja uma atriz brilhante como Natalie Portman atuar no mesmo nível de um Hamster com apendicite, ou Ewan McGregor, outro dos melhores de sua geração, ser completamente ignorável (problema exclusivo do episódio I pelo menos). Com uma maior preocupação com os atores, a nova trilogia seria certamente muito melhor.
É interessante pensar que a maior parte dos problemas se concentra efetivamente no primeiro episódio da Saga, ainda que um dos grandes erros (isto é o Romance) é um problema exclusivo dos dois episódios finais.
Mas não somente de coisas ruins são feitos estes filmes, portanto sem mais delongas, as dez melhores coisas da nova trilogia:
10 – Ewan é Obi-Wan Kenobi:
Sem dúvidas um dos trabalhos de atuação mais brilhantes de Ewan McGregor foi criar um personagem que é sem dúvidas Sir Alec Guiness mais jovem. O ator conseguiu colocar em sua versão do personagem todos os trejeitos e maneirismos do imortal cavaleiro inglês. Do jeito de falar até as expressões e tiradas babacas (“o que eu falei era verdade de um certo ponto de vista”), Obi Wan teve uma participação fantástica e digna na nova trilogia (ainda que tenha ficado apagado no episódio I).
9 – Ascensão e queda da ordem Jedi:
Sem dúvidas uma das coisas mais legais dos novos episódios é ver a ordem Jedi funcionando em um período antes de sua queda. Não só vemos a instituição em termos físicos e sócio-culturais como é perfeitamente possível compreender por que eles caíram. Havia sim uma arrogância inata e uma posição de se olhar o mundo de um olhar acima, em quase todos os jedis, mesmo dentro de seu ideal de altruísmo. A ordem 66 é uma das coisas mais legais da nova trilogia, e as cenas são realmente chocantes e dolorosas (principalmente a morte do cerean Ki-adi Mundi).
8 – Planetas e ambientações:
Os filmes têm coisas muito bonitas. O que é o planeta Naboo e as belíssimas construções em Theed? Ou o impressionante planeta cidade Coruscant? Acredito que ainda que existam certos exageros no CGI, de forma algum eles estão nas belas paisagens da Nova Trilogia, que apresenta lugares bem mais bonitos e diferentes do que aqueles que apareciam nos filmes clássicos.
7 – Conceitos:
De forma semelhante ao item anterior, a nova trilogia é riquíssima no que concerne os novos conceitos apresentados, isto é, novas naves, alienígenas, objetos e vestimentas. Todos os três episódios trazem acréscimos significativos nesse sentido, desde as belas naboo starfighters e os toydarianos do primeiro filme até o planeta Utapau e seus habitantes em “A Vingança dos Siths”. Do sabre duplo até o pontiagudo Jedi Starfighter. Mesmo o desfile de moda desnecessário da Rainha de Naboo é visualmente interessante.
6 – Os novos personagens:
Não há como negar, muitos dos personagens novos são excelentes e emblemáticos. Para citar apenas os melhores: temos Mace Windu, o motherfucker mestre Jedi interpretado por Samuel Jackson, Conde Dooku, do sempre excelente Christopher Lee, o sábio e impetuoso Qui-gon Jinn de Liam Neeson, até personagens menores como o Senador Bail Organa de Jimmy Smits, ou o vendedor de ferro velho Watto. A ausência de personagens bons e interessantes definitivamente não foi o problema da nova saga.
5 – John Willians é sempre foda:
Não há discrepância aqui. A qualidade musical da nova trilogia está no mesmo nível da antiga. Dez anos se passaram desde que ele compôs a já clássica “Duel of fates” e até hoje não consigo imaginar uma música melhor para um duelo épico (junto com Excalibur do Vangelis). Os tons do Maestro Willians ao lado da sinfônica londrina são sempre perfeitos e continuam sendo na nova trilogia.
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=dRxZBKH9zdY[/youtube]
4 – Duelos:
A nova trilogia é onde repousam os melhores (ok, os piores também) duelos de Star Wars. Ainda que ela tenha dado frutos a coisas ridículas como Yoda perereca contra Dooku ou o cansativo e exagerado duelo final entre Obi-Wan e Anakin (que cruza a fronteira do ridículo), temos também outros muito bons. O melhor deles sem dúvida está no episódio I, Obi e Qui-Gon contra Darth Maul. A luta é fantástica e muito bem coreografada, muito melhor do que você vai encontrar em qualquer filme chinês de luta. Quando perguntam para mim o que é um embate épico, eu mostro essa cena, todos os elementos estão lá.
3 – O sentido de história:
As trilogias são magistralmente conectadas, não há espaço para furos cronológicos. Não só a história é única e linear, como podemos perceber até mesmo a evolução da tecnologia. Dos capacetes de clone troopers até a lenta transformação dos caças jedis em Tie Fighters, tudo ganha um senso de progresso e evolução. Os sets da casa de Schimi Skywalker em Tatooine no episódio II são idênticos aqueles vistos em “a nova esperança”, o mesmo vale para a nave Tantive IV de Bail Organa, invadida por Darth Vader nos primeiros minutos da trilogia clássica. O sentido de continuidade entre a nova trilogia e a velha é perfeito.
2 – O grande Imperador:
Se existe um personagem que rouba completamente a cena na nova trilogia este é Palpatine, interpretado de forma magistral por Ian MacDiarmid. Ele é perfeito como o grande vilão de toda a saga, vivendo a altura de sua fama. Palpatine é o maior Sith de todos e a grande mente por trás da criação do Império. Sua interpretação jocosa e sarcástica é de longe um dos pontos altos da nova Trilogia.
1 – O grande plano:
Só tem uma coisa mais legal que o Palpatine na nova trilogia, o seu plano político, algo tão legal que supera inclusive a trilogia clássica (que não tinha algo tão bem orquestrado em nenhum dos episódios). Tudo começa com a identidade dupla de Darth Sidious e Palpatine, na época Senador de Naboo, um planeta irrelevante politicamente. Como lorde Sith, ele convence a Federação de Comércio a ir contra o seu planeta natal, colocando-o em evidência e chamando atenção para si no senado galático. Seu alter-ego ataca Naboo, trazendo com isso o questionamento da capacidade de júri do Chanceler da República, o que abre a vaga ao cargo para o próprio Senador Palpatine, que teria sofrido com a inadimplência de seu antecessor. O então líder da República usa sua outra identidade para unir os descontentes com seu governo e forma uma confederação de planetas independentes que acaba por declarar guerra à República. Dada a situação de emergência, Palpatine ganha poderes tirânicos temporários para diminuir a burocracia no efetivo de Guerra. E por aí vai… O plano do Imperador é excelente, e só assistir ao desenrolar do mesmo já vale o ingresso (ou o aluguel dos dvds) do filme. Este é para mim, o aspecto mais legal dos novos filmes, desenvolvido de forma magistral.
Com qualidades ou defeitos, são dez anos do início da nova trilogia, vinte e três anos depois do primeiro filme da série. Resta agora esperar que com o impressionante avanço da técnica de captura de movimentos e modelagem 3D, agente possa assistir a uma nova trilogia, com a volta de Luke e seus companheiros. Não custa nada sonhar, afinal, mesmo que seja ruim, isso não vai estragar os filmes que eu já amo.










Deixe um comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.