Ninguém disse que seria fácil assistir a Dheepan – o Refúgio, filme do diretor Jacques Audiard (O Profeta, Ferrugem e Osso), que ganhou a Palma de Ouro em Cannes este ano. Não porque seja difícil de entender ou porque os sentidos escapem à narrativa. Não. É porque se trata de um tema árduo e o ponto-de-vista que o diretor escolhe para rodar seu filme é o do refugiado que vem de uma cultura distante, muito diferente daquela a que, ocidentais bravios, estamos acostumados.

No filme, Sivadhasan (Jesuthasan Antonythasan) é um guerreiro tâmil que desiste da guerra no Sri Lanka e tenta fugir de seu país e recomeçar a vida na França. Para conseguir se utilizar do passaporte de um homem morto, deve se juntar a uma mulher e a uma adolescente, que não conhecia anteriormente, e que doravante vão representar os familiares desse homem.

Assim, simulando uma família que, na realidade, é composta por pessoas que acabam de se conhecer e que têm em comum o desejo de se afastar ao máximo de seu país e da violência que o acomete, os três se juntam em uma simulação difícil de sustentar para conseguir reformular sua vida em um condomínio onde gangues rivais ocupam espaços e fazem seus negócios.

Sivadhasan, Yalini (Kaleaswari Srinivasan) e Illayaal (Claudine Vinasithamby) se tornam a família Dheepan, tentando levar a cabo uma rotina o mais parecida possível com o que se supõe ser a vida normal dos cidadãos franceses.

O que é mais difícil nesse filme é constatar que a família Dheepan está “abaixo do mais baixo” na escala hierárquica das camadas sociais que não é tão visível e fixa quanto num país como a Índia, mas que, sub-repticiamente ou de maneira bem mais sutil, não deixa de existir. Essa é a perspectiva adotada pelo diretor e é dela que vemos o desenrolar da rotina e dos fatos. A violência que ocorre nessa nova situação é de outra espécie, mas não deixa de existir e dar seus sinais, aqui e ali.

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Sivadhasan torna-se zelador do prédio, Yalini torna-se cuidadora de um idoso e a adolescente entra para a escola, a princípio em uma classe especial. Todos tentam se inserir em uma cultura cujas brechas são estreitas. Tudo é diferente para eles, e sua fisionomia, sua maneira de ser, seus hábitos e roupas chamam a atenção das outras pessoas. Eles estão “abaixo do mais baixo” ou “abaixo do abaixo” por diversas razões. Ninguém quer brincar com a menina na hora do recreio, por exemplo, nem aqueles que sofrem preconceito e são sabidamente alvo de segregação deixam de segregá-la: numa das cenas do filme, ela é expulsa de uma brincadeira coletiva.

Sivadhasan, por seu turno, deve esperar o momento certo para limpar o cômodo em que a gangue se reúne, obedecendo ordens daqueles que representam a parcela marginal da sociedade, sem prestígio apesar de ter algum poder. Quanto à Yalini, também recebe ordens e é paga pelos membros de outra gangue, dado que o idoso de quem cuida mora no apartamento onde a gangue se reúne.

Eles não têm escolha. Não há muitas outras oportunidades para eles, que almejam sair da França e ir à Inglaterra em breve, assim que os documentos chegarem. Enquanto estão em estado de espera, precisam reconstruir sua vida, mas o devem fazer entranhados por um estranhamento que precisam suportar sem alarde. Que sejam discretos ou sofrerão as consequências. Além disso, são estranhos entre si, e o elo que os une é a sobrevivência em um país hostil, mesmo que se trate de uma hostilidade disfarçada.

No filme, a tensão vai gradativamente cedendo lugar aos conflitos expressos até a reviravolta final. É como se o filme inteiro caminhasse para isso, não por escolha de seus protagonistas, embora o destino seja essa entidade altamente questionável e impalpável, mas porque, dadas as circunstâncias, não haveria outra possibilidade lógica para o que, enfim, acontece.

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