Existem filmes que fazem você sair do cinema pensando seriamente se aquilo tudo que foi visto na tela realmente foi colocado ali de propósito ou se seu cérebro forçou a barra para que você achasse que viu aquilo.

A primeira vista, Drive é um desses casos. Será que realmente este filme é tudo isso que estão falando lá fora ou é apenas mais um filme de Hollywood querendo-se passar por indie, dando a entender que a estética apresentada é uma representação falsa, com o intuito de levar o espectador a achar que aquele filme é bem mais do parece.

Em verdade, Drive era para ser uma versão cinematográfica próxima do que seria um filme baseado no jogo GTA, com fugas velozes e violência, mais um “Velozes e Furiosos” genérico que seria esquecido a tempo do Natal chegar.

Porém, Ryan Gosling procurou o diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn, do espetacular Bronson (que lançou Tom Hardy ao estrelato), e ambos chegaram ao consenso que o livro de James Sallis deveria ser adaptado de uma forma mais sutil, quase um thriller noir.

Ainda assim, o filme começa passando a impressão que veremos algo já comum em Hollywood. Uma grande cena de fuga de um assalto mas, preste atenção aos detalhes. Não há explosões, grandes batidas, slow motion. Nada das coisas que faz de Hollywood essa casca vazia de originalidade.

O filme é silencioso como uma igreja, interpelado suavemente pela trilha sonora incidental de Cliff Martinez, que baseou-se no synth pop dos anos 80 para criar algo anacrônico. Martinez é o compositor favorito de Steven Soderbergh. Em verdade, a trilha lembra muito a criada para o filme “Contágio”. As poucas músicas que se escutam no filme aparecem em momentos específicos, quando o personagem de Ryan Gosling está esperando para começar mais um serviço. Nota de mérito para a brasileira Lovefoxx do CSS que canta a música “Nightcall” com Kavinsky.

A história não é das mais originais, onde um motorista de fuga (Ryan Gosling) acaba por pegar um serviço para um bando de mafiosos que dá errado. Enquanto isso, ele se apaixona pela sua vizinha (Carey Mulligan) que acaba sendo ameaçada devido a seus problemas. A história, por mais simplória que seja, permite a liberdade que o diretor e atores precisam para fazer o filme ser este algo mais que vem deixando diversos críticos boquiabertos.

Não estamos tratando de um filme de fácil digestão. O personagem de Gosling é lacônico e por diversos momentos do filme o silêncio é quem fala, através dos olhares e gestos dos atores. O contraponto são os dois vilões da peça: Albert Brooks e Ron Perlman que fazem os típicos mafiosos de segunda que gostam de falar alto e ameaçar os outros.

A retratação da cidade de Los Angeles e arredores é toda mérito de Newton Thomas Sigel, diretor de fotografia que já trabalhou com Bryan Singer e que conhece a cidade bem melhor que o diretor dinamarquês Refn – que teve de receber um tour nas mãos de Ryan Gosling com fins de achar as melhores locações para as filmagens.

As escolhas de filtros e ângulos de câmera demonstram sensibilidade ao enquadrar apenas o que é necessário, deixando que o público complemente a cena com sua própria imaginação. Ainda, ele reforça a idéia do silêncio ao se focar constantemente no rosto dos personagens e em suas reações ao que está acontecendo na tela.

Pode-se dizer que “Drive” é o mais próximo de um filme baseado em GTA, mas filmado por David Lynch em seus anos menos sóbrios, explorando muito mais as sombras do ser humano do que a luz, seja ela bela como Carey Mulligan ou artificial como as luzes da cidade e dos televisores, iluminando a mortalha de humanidade que aparece na tela.

Neste âmbito, méritos a Ryan Gosling por conseguir interpretar um personagem despido de emoção sem parecer com Nicholas Cage em todos seus papéis. O único demérito do filme foi a presença totalmente desnecessária de Christina Hendricks (do seriado Mad Men), que praticamente é apenas um enfeite decotado no filme, mostrando sua total incapacidade de atuar ou ser uma femme fatale como tentou-se retratá-la.

Por fim, é de se ressaltar que o filme é bom, mas é para poucos devido a seu ritmo compassado e, em certos momentos, pesado, causando um certo desconforto ao espectador casual de cinema que está acostumado com o mainstream de Hollywood.

Este não é o melhor filme do ano, mas com certeza estará na lista dos 10 melhores de muita gente.