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Festival do Rio: a tese da melancolia em “The American”

O cinema contemporâneo nos dá a ligeira impressão de que precisa incessantemente se justificar pelo ideal da reciclagem. E quem vos fala isso não é um “resenhista” da terceira idade, mas que ainda nem passou da barreira dos 25 anos.

The American (que na “criativa” versão brasileira se chamará Um Homem Misterioso) é uma das provas desta divagação. Protagonizado (com sua comumente elegância cênica) por George Clooney, o filme é baseado no livro A Very Private Gentleman, de Martin Blooth, e acompanha a obscura história de um matador profissional que busca a aposentadoria, devido ao esgotamento emocional do trabalho, em um último serviço, na região montanhosa de Abruzzo, na Itália.

O argumento é batido, mas a direção de Anton Corbijn (Control) procura imprimir uma personalidade ao tema, com muita câmera parada, uso de fotografia barroca e predileção pelo subtexto. A reinvenção do gênero aqui acaba por tolir a vivacidade do filme. Não que a nossa geração “Bourne” não esteja apta a absorver esse tipo de maneirismo, afinal, temos nossa representação geracional no talento silencioso de Sofia Coppolla. O problema é que nesta busca por um novo olhar sobre o velho, o filme exprime pouco do que poderia ser, resultando num longa de (muitos) bons momentos, mas de pouca vivacidade cinematográfica. Está longe de ser ruim, mas a sensação é de que não algo não engrenou.

Clooney aproveita a placidez com que o diretor leva o filme e constrói seu matador um tanto kafkaniano. Mereceria uma indicação ao Oscar pela inteligência com que se vale de seu silêncio. O diretor tenta equilibrar algumas boas cenas de perseguição com certa introspecção narrativa e mesmo conseguindo um clímax final honroso, é indisfarçável que o seu maior êxito foi ter conseguido transferir o viés lacônico de seu protagonista para todo o filme.

Taí, a contemporaneidade, mirando a constante renovação, por vezes, acaba atingindo a melancolia.

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