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Festival do Rio: Elvis e Madona não vai além do riso fácil

Toda a vez que o cinema brasileiro (recente) ambiciona retratar uma relação humana mais complexa, sempre esbarra na falta de consistência de sua pretensão. Foi assim no polêmico (!) Do começo ao fim, de Aloízio Abranches que prometia muito com um argumento delicadíssimo onde dois irmãos se relacionam sexual e emocionalmente, levantando uma possível discussão tanto sobre o homossexualismo quanto sobre o incesto. Mas eis que o resultado termina em uma história rasa de discussões, onde o conflito inexiste num universo que precisa de justificativas pelo menos à uma reflexão.

Elvis e Madona, estreia na direção de longas de Marcelo Lattiffe, sofre desta mesma síndrome: retrata a inusitada relação de um travesti e uma lésbica, mas é desamparado por um roteiro que não dimensiona às possibilidades e discussões que esse envolvimento traria. Lattiffe ainda procura tratar da trama pela via do humor, o que acrescentaria uma ótica bem interessante ao tema, mas essa opção de gênero acaba por deslumbrar demais todo o filme, que acaba virando um pastiche do assunto, com frases e situações que beiram o escracho e resultam no inevitável riso fácil. Em nenhum momento o filme apresenta as motivações de seus personagens – o casal se conhece, se apaixona, aceita a situação como se fosse rotineira e o roteiro só ampara esse ciclo para angariar gargalhadas da plateia, como se a comédia em si não fosse uma plataforma verossímil a uma discussão mais ampla da relação.

Os atores, entretanto, são o destaque do longa. Simone Spoladore faz uma composição precisa de sua personagem homossexual e Igor Cotrin consegue trazer humanidade a seu travesti que o roteiro insiste em caricaturar. Até o elenco de coadjuvantes é muito bom. Faltou mesmo um roteiro que fosse mais inteligente na abordagem e não condescendente ao artificialismo do humor raso. Assisti ao filme em sua sessão de gala no Festival do Rio e ele realmente fez muito sucesso entre os presentes, uma vez que a plateia se divertiu muito. Mas aí é que está: muitas gargalhadas, aplausos em “cena aberta”, mas no fim o que era para ser um interessante retrato das múltiplas possibilidades do desejo (ou do amor?), acaba virando uma comediazinha que se esquece com a mesma rapidez que é consumida.

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