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Festival do Rio: Guerra Civil

“Guerra Civil” , do português Pedro Caldas, é uma espécie de “Pauline à la plage”, sem a filosofia, a leveza e genialidade do francês Nouvelle Vague, Eric Rohmer.  É um filme de verão, passado no início dos anos 80 em um balneário lusitano e conta a história de Rui, adolescente que passa os dias ensolarados vestido de preto, ouvindo Joy Division e rabiscando desenhos com grande carga de eroticidade masturbatória, como é o comum dos rapazes de sua idade.

Rui divide a casa de férias, à beira da praia, com sua mãe com quem mantém um diálogo reduzido ao mínimo e à espera do pai, sempre ausente. Sua mãe se entretém esses dias indo à praia e compartilhando sua libido reprimida com rapazes mais jovens.  O único amigo de Rui, por sua vez,  é um pequeno rato de estimação.

O solipsismo deprimido de Rui será perturbado pela presença de Joana, bela rapariga púbere,  que se diverte em suas férias com os banhos de mar, os passeios de bibicleta e em mexer com a libido de seus colegas jovens. Ele escolhe o sombrio Rui como alvo de sua atenção e num misto de malícia e ternura o provoca sexualmente para que ele saia de sua reclusão auto-indulgente.

A um determinado momento, ouvimos o noticiário televisivo informar sobre o massacre de Sabra e Chatila que ocorreu naquela época e começamos a entender o título do filme que contrasta com a vida pacífica e bucólica do balneário. Mas a guerra civil de que fala o filme não é o conflito que ocorre no Oriente Médio, mas a guerra desesperançada de Rui contra suas próprias pulsões sexuais. Pedro Caldas opõe a sexualidade desabrida, mas desencantada, da mãe de Rui com a própria impotência do rapaz em responder aos chamados afetivos e eróticos de Joana que procura lhe acender uma flama qualquer de vida.  Fica claro que o travamento sexual de Rui é uma incapacidade de lidar com o erotismo de sua própria mãe.

A situação ainda se deteriora com a chegada do pai de Rui, que de maneira desastrada e tímida, tenta reiniciar um diálogo com o filho. Mas a própria leniência do pai em relação às traições de sua mulher surge aos olhos do filho como mais uma motivação para recusar a sexualidade feminina.

Numa cartada decisiva, Joana chama o rapaz de “parvo”, por ser incapaz de agir por conta própria e, a esta altura, nós espectadores sentimos vontade de entrar na tela para ajudá-lo a se libertar de sua apatia existencial. Mas a guerra civil de Rui, tal como o conflito no Oriente Médio, é algo que não tem possibilidade de solução…

O filme conta com uma fantástica trilha sonora, com músicas do Joy Division, Orange Juice, Dexys Midnight Runners e The Clash, canções que embalavam,  com vitalidade sonora, aqueles dias deprimidos e desesperançados do início dos anos 80 em que as grandes batalhas das décadas anteriores acabaram por  ser brutalmente interiorizadas e simbolizadas, para muitos jovens, no suicídio prematuro de Ian Curtis do Joy Division, não por acaso, ídolo do jovem gajo Rui.

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Aprendiz

Publicado por Guilherme Preger

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