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Festival do Rio: “The Zero Theorem”

Os protagonistas dos filmes do diretor americano Terry Gilliam têm um elemento em comum: a inadequação de viver em sociedade, seja ela realista, como em “O Pescador de Ilusões”, ou com elementos fantásticos, em produções como “Brazil – O Filme” ou “Os 12 Macacos”, algumas de suas obras mais conhecidas, que acabaram chamando a atenção do mundo para o seu trabalho. A mesma coisa acontece em seu novo filme, que concorreu ao Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2013, “The Zero Theorem”. O problema é que, como tem acontecido em suas mais recentes produções, Gilliam acabou não acertando a mão, o que tem tornado a sua filmografia, infelizmente, muito irregular.the-zero-theorem04

Ambientada numa sociedade caótica, onde o consumo é evidenciado por propagandas que “correm atrás” das pessoas pelas ruas e comandada por grandes corporações, a trama é centrada na figura de Qohen Leth (Christoph Waltz), um hacker que trabalha numa empresa comandada pelo Gerente (Matt Damon) e supervisionado por Joby (David Thewlis) para conseguir resolver o Teorema Zero que, acreditam, vai resolver o sentido da Vida através da Matemática. Acostumado a viver sozinho (tanto que costuma referir a si próprio como “nós” ao invés de “eu”, para preencher a sua solidão), Qohen começa a reavaliar seus conceitos após conhecer a bela, sensual e, aparentemente, ingênua Bainsley (Mélanie Thierry), que o faz despertar para um relacionamento (ainda que virtual, na maior parte do tempo). E também com a chegada do jovem Bob (Lucas Hedges), filho do Gerente, que decide ajudá-lo com a sua tarefa e, ao mesmo tempo, mostrar que outras coisas na vida são mais importantes que equações e logaritmos.

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Como em boa parte de sua filmografia, Gilliam mostra um grande cuidado com a parte visual de “The Zero Theorem”. As imagens que mostram o personagem de Matt Damon com roupas que se misturam ao cenário, como se fossem uma coisa só, foram um bom achado, assim como mostrar o trabalho de Qohen de decifrar o teorema como uma versão tridimensional do jogo Tetris, e os encontros virtuais do protagonista com Bainsley numa praia paradisíaca. Chama a atenção também a roupa que o protagonista usa para se conectar com a moça, que mais parece uma versão mais elaborada dos espermatozoides de “Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo e tinha medo de perguntar”, de Woody Allen. Além disso, saltam aos olhos do espectador a direção de arte e a fotografia de Nicola Pecorini.

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É uma pena, no entanto, que o filme peque justamente na direção e no roteiro. Gilliam já foi mais eficaz em desenvolver tramas de Ficção Científica mais elaboradas no passado e, desta vez, ele não consegue realizar um trabalho mais instigante, deixando alguns momentos da produção arrastados. Já o texto de Pat Rushin decepciona por tratar de temas complexos como o existencialismo de forma rasa, empregando soluções que não instigam nem fazem o espectador pensar, o que pode fazer o público não se interessar de verdade sobre o que está acontecendo na trama.

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O grande desafio de Christoph Waltz (que também é um dos produtores) é fazer com que o seu personagem, que tem algumas características dos tipos vividos por Bruce Willis em “Os 12 Macacos” Jonathan Price em “Brazil – O Filme”, um ser agradável, mesmo com suas deficiências. O ator, mais uma vez, realiza um bom trabalho, mas que não se compara com o que ele realizou com Quentin Tarantino em “Bastardos Inglórios” e “Django Livre”A francesa  Mélanie Thierry consegue dar doçura e sensualidade necessárias para tornar carismática a sua Bainsley. Já Matt Damon e David Thewlis pouco têm a fazer com seus personagens. Mas o grande destaque do elenco (que conta também com Tilda Swinton, Peter Stomare e Ben Whishaw) é o jovem Lucas Hedges, que interpreta com sinceridade o irônico Bob, responsável por algumas boas cenas do filme.

No fim das contas, “The Zero Theorem” fica no meio do caminho de sua proposta, talvez por falta de coragem (ou de inteligência) de seus realizadores, que poderia render um filme bem mais instigante para o espectador. Terry Gillian ainda está devendo um filmaço, como ele já foi capaz de fazer num passado não muito distante.

O filme ainda não tem data de lançamento no Brasil.

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Publicação Célio Silva