Na primeira vez em que eu li a palavra “páthos” ela se referia ao cinema de Charles Chaplin. Só muito tempo depois que eu descobri o que ela significa, dentro da retórica aristotélica: o uso de gatilhos emocionais. Percebi então que o cinema de Chaplin está repleto de “páthos” praticamente desde seu primeiro curta, feito há 110 anos, mas ainda mais forte em seus longas feitos a partir da década de 1920. Mas hoje não vamos falar do Vagabundo mais querido do cinema: vamos falar de animação.
“Patos!” começa com uma animação 2D. É o pai pato contando uma história antes de dormir para seus dois filhos, Dax e Gwen. O pai pato é Mack, tão medroso que se recusa a migrar no inverno porque só se sente seguro em seu pacato lago. A mãe pata é Pam, ela anseia por aventuras. Depois de uma conversa com o matusquela tio Dan, Mack se convence a ir para a Jamaica com a família. No caminho, eles passam por Nova York e encontram tipos interessantíssimos.

O filme não apresenta muito mais do que patos dançando salsa e tango. Não há momentos verdadeiramente emocionantes, embora a animação seja decente e até uma recriação da Big Apple apareça na tela para deleite de nossos olhos, mesmo daqueles que nunca estiveram lá. Falta páthos em “Patos!”. Mas não é assim em todas as animações.
Páthos como chantagem emocional: o caso Pixar
Atire a primeira pedra quem nunca chorou num filme da Pixar. Pode ter sido com a rápida partida de Elle no começo de “Up – Altas Aventuras” ou com o quase fim dos brinquedos numa fornalha em “Toy Story 3”. Talvez com a morte prematura e inesperada do irmão mais velho do protagonista de “Operação Big Hero” ou com o desaparecimento para sempre de Bing Bong em “Divertida Mente”. Pronto, chega de spoilers.
A piada de que a Pixar pensou “e se brinquedos tivessem sentimentos?” como origem de “Toy Story”, indo até o questionamento “e se sentimentos tivessem sentimentos?” para justificar “Divertida Mente” é o próprio páthos em ação. O gatilho é a identificação inserindo temas universais para que nos importemos com objetos inanimados e cheguemos às lágrimas com situações inverossímeis ou simplesmente inventadas. Choramos quando morre uma das nossas memórias de infância? No cinema, sim.

Studio Ghibli: sobre se importar
Confesso que chorei copiosamente reassistindo a “As Memórias de Marnie”, já sabendo o que ia acontecer e sofrendo por antecipação. E, como quase todas as pessoas com coração, tive o meu dilacerado por “O Túmulo dos Vagalumes”.
A maioria dos filmes do Studio Ghibli é protagonizado por humanos, mas algumas criaturas são salpicadas aqui e acolá para que nos importemos com elas também. É esse se importar que faz funcionar filmes como “Ponyo” e “Porco Rosso”. O páthos novamente surge por identificação: podemos nos colocar no lugar da menina em sua viagem ou do garoto que vai viver com uma nova madrasta e segue uma grande ave em busca de respostas sobre sua falecida mãe. Nós também faríamos o mesmo? Não importa, já vivemos essa aventura no conforto de nossas poltronas.

Illumination: keep it simple
“Patos!” foi produzido por Chris Meledandri, mesmo produtor dos filmes de Gru e seus minions. Nestes, imperam as piadas visuais – a maioria das piadas que ressoaram com as crianças que estavam em minha sessão de “Minions” envolvia o traseiro dos amarelinhos – e a pouca sutileza destas.
Mas talvez o produtor não pese tanto quanto o diretor e o roteirista para imprimir sua marca registrada num filme – aqui é teoria do Auteur na veia. “Patos!” foi dirigido e co-escrito por Benjamin Renner, um dos diretores de “Ernest e Celestine”. O outro roteirista é Mike White, mente por trás da série antológica de televisão “The White Lotus”. Nem parece.

Nem só de crianças vive o gênero – a animação para adultos
Em geral com visual altamente estilizado e exibido por aqui na língua original com legendas, as animações voltadas para o público adulto costumam fazer sucesso, se não de público, ao menos de crítica.
Títulos como “Mary e Max” e “Memórias de um Caracol” (imagem abaixo), ambas dos mesmos realizadores, e também “Minha Vida de Abobrinha” e uma animação que vi recentemente no festival online My Meta Stories, “A Vida, em Resumo”; todos são carregados também de páthos, mas se permitem – ou lhe são permitidos a – falar de assuntos mais sérios. Aqui vale a máxima de Guillermo Del Toro ao ganhar o Oscar de Melhor Animação por “Pinóquio”: animação não é um gênero para crianças, é mais uma técnica para se contar histórias.

A animação brasileira – sim, ela existe
A primeira animação brasileira data de 1917 e era uma transposição para o cinema de um cartum político sobre a Primeira Guerra Mundial, então em andamento. Como a maior parte do cinema mudo brasileiro, ela não existe mais: se você viu alguma versão dela por aí, trata-se de reconstituição com base histórica.
Existente entre trancos e barrancos, num cinema que também é marcado por ciclos, a animação brasileira recentemente foi mapeada numa pesquisa complexa. Ela revelou detalhes interessantes, como que 46% das produtoras de animação exporta conteúdo para outros países. O escoamento da produção, que vem crescendo, é feito através de festivais de cinema, TV aberta e YouTube. O cinema de animação brasileiro está aí para quem quiser ver. No último mês vi duas animações brasileiras. Tive sensações mistas em relação a elas.
A mais recente foi “Abá e sua Banda”, de 2024. Extremamente lúdica, a história se passa num reino de frutas, onde mora o príncipe Abá, um abacaxi. Ele deixa o palácio disfarçado para tocar com sua banda de rock pela cidade. Seu sonho é abrir o Festival de Primavera, mas não pode contar para seu pai, pois uma tragédia num Festival passado foi responsável pela morte de sua mãe. Adorei este filme.

O outro foi “Chef Jack: O Cozinheiro Aventureiro”, de 2023, que merece destaque por ser o primeiro filme de animação feito em Minas Gerais. Infelizmente, o filme tenta a todo momento copiar as fórmulas de sucesso das animações estrangeiras, trazendo uma mistura dos reality shows “The Amazing Race” e “Masterchef” e pecando por excesso de ação e correria, com detalhes óbvios. Também não ajudam os nomes americanizados dos protagonistas, Jack e Leonard. Nem a divertida música chiclete dos créditos finais salva essa cópia de animações estrangeiras que teria se beneficiado tanto de um tempero tipicamente brasileiro.
Excesso de ação parece ser o mal de que todas as animações recentes sofrem. Mas talvez seja só o sintoma do cinema se adaptando a uma geração que nasceu com o smartphone na mão. Para um público em mutação, o cinema de animação também precisa mudar. E agora, com a chegada de supetão da Inteligência Artificial, as mudanças serão ainda mais intensas, mas pode se dizer, com algum grau de certeza, que a busca pelo páthos continuará, milenar e com força total.








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