Filmes

Intimidade – O último rock em Londres

Com uma década de atraso, chega ao DVD o filme Intimidade (Intimacy, 2001) de Patrice Chereau (A Rainha Margot). Deste filme pode-se dizer que é uma típica produção da União Européia: realização de um diretor francês, baseado no livro do anglo-paquistanês Hanif Hureishi, com atores britânicos, numa co-produção francesa, espanhola, alemã e inglesa. Lançado em 2000, na virada do século, e pouquíssimo divulgado no Brasil, onde só passou em festivais, Intimidade ficaria conhecido mundialmente pelas cenas explícitas de sexo não-simulado na linha de “filme-cabeça-com-sexo”, tais como os posteriores “9 canções” (filme com quem tem bastantes afinidades), Ken Park, ou anteriores como os filmes de diretora francesa Catherine Breillat. Em todos estes filmes, a presença do “sexo real” é uma tentativa de retirar do gueto da clandestinidade e da bizarria da pornografia a atividade mais corriqueira e habitual que um homem e uma mulher podem se dedicar.

Intimidade é uma espécie de “Last Tango in Paris” do século XXI: sem se dizerem uma só palavra e sem nenhum conhecimento de suas vidas pregressas, Claire e Jay (vividos respectivamente por Kerry Fox e Mark Rylance em atuações corajosas e marcantes – Kerry foi premiada em Berlim) se encontram todas as quartas-feiras no apartamento dele para transar. Tiram as roupas, fazem, depois ela se veste e vai embora. E assim sempre.

Ao contrário de O Último Tango, entretanto, não há erotismo, seja na relação ou nas cenas filmadas com uma clareza seca: não estamos no ambiente nem das perversões clandestinas nem na visão do livre sexo como prática utópica e revolucionária. Não há aqui nem manteiga nem encenações teatrais de virilidade: para Claire e Jay, o sexo não é uma atividade libertária. Apesar de eles estarem fugindo do vazio e do impasse de suas vidas pessoais, não é através do sexo que eles pensam em se redimir. Num certo sentido, o casal não sabe por que trepa. Eles simplesmente fazem e p(r)onto.

No entanto, haverá algo que converge com o filme de Bertolucci. Barrando-se mutuamente a história de suas vidas, o casal não conseguirá evitar que alguma coisa de furtivo e inesperado “penetre” a superfície não tão impermeável de silêncio e desconhecimento que ergueram em torno de si. E a exemplo do clássico dos anos 70, será neste também o personagem masculino o mais frágil, aquele que se deixará ser afetado de maneira mais irreversível pela sutileza do afeto. Tal como o personagem de Brando, será o homem o primeiro a quebrar o pacto de distanciamento e estranheza e será a mulher a quem caberá a decisão final.

O francês Patrice Chereau dirige este filme com uma lente direta e nervosa, ao estilo “câmera-na-mão” que não evita os contornos e os detalhes anatômicos dos corpos de seus atores, corpos aliás comuns, nem bonitos nem feios, não estilizados nem produzidos, o que empresta às cenas um realismo cru e preciso. A montagem é rápida e vibrante, traduzindo com seus cortes a inquietude urbana londrina. A trilha sonora, um dos pontos mais altos do filme, é de rock e tem nomes como David Bowie, Nick Cave e The Clash (nisto e no realismo da filmagem se assemelha com 9 canções). Chereau, aliás, é um cineasta pouco usual: tendo obtido alguns poucos sucessos em filmes como A Rainha Margot (que ganhou prêmio de melhor filme em Cannes em 1994), com Isabelle Adjani, tornou-se sobretudo um diretor de teatro e de ópera, com várias encenações wagnerianas no currículo. Chereau sabe, aliás, manejar com destreza a edição entre imagem e som, música e ambiente.

Este filme, que abriu o novo século, traça assim um retrato das relações afetivas e sexuais contemporâneas. Vivemos tempos hedonistas, de sexualidade livre, aberta e sem limites, ou estamos presos aos velhos rituais neuróticos da culpabilidade e da repressão? A intimidade é um espaço de convivência sexual que oferecemos ao nosso semelhante ou é uma barreira que erguemos à proximidade ameaçadora do outro? É um espaço de desejo ou de medo? De liberdade ou de prisão? E afinal, o que é mais transgressor nos tempos que correm: a fricção nervosa das carnes no conluio íntimo dos corpos ou a penetração violenta e incontornável dos afetos que mal reconhecemos os sentidos e os nomes?

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