Tom Cruise sabia que o caminho para o Oscar era se transformar. Literalmente. Em Digger, ele põe em prática o que aprendeu com a ex-esposa Nicole Kidman, que ganhou sua estatueta de atuação com maquiagem protética em As Horas. Em sua incansável busca pelo reconhecimento da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que já dura 37 anos, o astro se vale desta vez de artilharia pesada, a bordo de uma produção suntuosa comandada pelo vencedor do Oscar Alejandro G. Iñárritu.
A linha tênue entre a ambição desmedida e a destruição global é o motor central de Digger, novo drama épico que promete entregar uma narrativa carregada de tensão política, ambiental e psicológica. O longa acompanha a jornada do homem mais poderoso e influente do planeta — um bilionário cuja busca por poder acaba desencadeando um desastre ecossistêmico de proporções globais.

Confrontado com o peso das próprias escolhas e com a iminência de um colapso irreversível, o protagonista embarca em uma corrida frenética contra o tempo. O objetivo, contudo, vai além da simples reparação dos danos: movido por uma complexa mistura de culpa e vaidade, ele tenta desesperadamente provar ao mundo que é o verdadeiro salvador da humanidade.
Para conter a crise antes que o planeta chegue a um ponto de não retorno, o magnata precisa navegar por bastidores geopolíticos de altíssima pressão, cruzando o caminho de líderes globais cruciais, incluindo o próprio presidente dos Estados Unidos. Essa busca por recuperar a credibilidade perdida expõe os jogos de interesse e a volatilidade das figuras que moldam o destino do mundo moderno.

Tom Cruise tem ali um verdadeiro palanque para pleitear sua primeira estatueta. Há, inclusive, um monólogo de cerca de 10 minutos em plano-sequência no qual ficam ainda mais claras as intenções do astro com esta produção. É como se ali ele implorasse pelos aplausos da Academia. Seria até constrangedor se a cena não fosse tão boa, apesar da intencionalidade explícita.
Cruise já deu bons exemplos ao longo de sua carreira de que é capaz de realizar trabalhos com alguma robustez dramática – e até cômica, como foi visto em Trovão Tropical. Em Magnólia, quando bateu na trave no Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, já deixara claro que possuía envergadura para muito mais do que um herói galã de ação. Mas faltava a coroação. E após o fim (em tese) da franquia Missão: Impossível, teria chegado a hora da láurea máxima do cinema.

Iñárritu faz muito mais do que apenas projetar as luzes da ribalta sobre Cruise. O diretor mexicano foi certamente orientado pelo protagonista e produtor do longa a não deixar de lado sua marca autoral, conferindo, assim, mais credibilidade ao produto. A deixa foi levada tão a sério que o cineasta elevou seu maneirismo inerente à enésima potência. Totalmente filmado em estúdio, Digger possui tomadas grandiosas (daí as exibições em IMAX), planos e enquadramentos arrojados, dando a impressão de que o realizador se sentiu em um verdadeiro parque de diversões.
Mas, no fim, quem rouba o show é John Goodman, interpretando uma paródia de presidente estadunidense que rende não só um, mas vários dos melhores momentos da trama. Ele parece ter compreendido até melhor que Cruise o revestimento irônico pretendido pelas lentes de Iñárritu e cria um amálgama de todos os governantes daquela nação, incluindo, claro, o atual. Goodman vale-se de seu talento para transitar entre o escracho e a fina ironia, sempre acreditando no personagem.

Digger tem vários predicados, mas, passada a curiosidade de ver Tom Cruise envelhecido como um homem comum, eles se tornam insuficientes para constituir um filme memorável. Talvez pelo excesso de ambição e pelo número de envolvidos no roteiro – escrito a oito mãos, incluindo as do diretor, fora os responsáveis pelo argumento, que também englobam Iñárritu -, o título tropeça na pretensão de se tornar uma espécie de Dr. Fantástico moderno e resulta apenas em uma comédia irregular, apesar de suas boas intenções.
Do arco frágil do protagonista ao desperdício de talento da atriz Sandra Hüller, são inúmeras as fragilidades que tolheram as ambições do longa. No fim, este saldo pode ser desfavorável a Cruise na temporada de premiações.











