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“A juventude” e a embriaguez de seu propósito

Johann Wolfgang von Goethe, em seu romantismo literário alemão, certa vez disse que “a juventude é a embriaguez sem vinho“. Pois o cineasta italiano Paolo Sorrentino fez de seu A Juventude uma grande embriaguez pelo hedonismo. Hedonismo esse, que já havia permeado sua obra anterior, o oscarizado A Grande Beleza. Agora, o diretor mira sua lente para as contradições da juventude, mesmo na condição de estado de espírito. Sua construção dramática é montada inteiramente nos contrastes que a juventude ou a busca dela, incidem sobre dois seres – os excelentes Michael Caine e Harvey Keitel – que estão hospedados num hotel nos Alpes Suíços em momentos de auto análises.

Fred (Caine) e Mick (Keitel), dois velhos amigos com quase 80 anos, estão passando as férias em um luxuoso hotel. Fred é um compositor e maestro aposentado, e Mick é um cineasta em atividade. Juntos, os dois passam a se recordar de suas paixões da infância e juventude. Enquanto Mick luta para finalizar o roteiro daquele que ele acha que será seu último grande filme, Fred não tem a mínima vontade de voltar à música. Além de rememorações e reflexões mútuas, o meio vai interferindo em suas resoluções pessoais.

youth-1030x615Sorrentino propõe uma reflexão marcadamente metafórica sobre o passado, o presente e o futuro, numa narrativa analítica e lúdica apresentando cenas, ora prolixa demais, ora de uma beleza aterradora (pela fotografia exuberante de Luca Bigazzi), como, por exemplo, a que Keitel “reencontra” personagens femininas que criou ao longo de sua carreira como diretor de cinema. O filme fica um pouco em uma linha tênue entre a representação e a idealização de seu discurso. É como se, ao olhar com cinismo para o hedonismo reinante no universo que propõe, fosse tão hedonista quanto o que retrata.

Essa dualidade o humaniza. Falar da juventude sob a perspectiva de seu fim não poderia ser de todo coerente. Mas Sorrentino emoldura tudo com tamanha maestria (o filme é puro exercício fílmico) que absorvemos suas divagações cinematográficas como tomamos um gole de um vinho bom. Ou seja, Goethe tinha razão: na juventude o que interessa é a embriaguez da qual ela é personalizada. A Juventude é esse vinho da qual não bebemos, mas saboreamos com muito prazer.

 

Filme: A Juventude (La Giovinezza)
Direção: Paolo Sorrentino
Elenco: Michael Caine, Harvey Keitel, Rachel Weisz
Gênero: Drama, Comédia
País: Itália, França, Suiça, Reino Unido
Ano de produção: 2015
Distribuidora: Fênix Filmes

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