CríticasFilmes

“Kasa Branca”: uma ode às amizades nas periferias

KASABRANCA STILL03

Podem até me chamar de Sheldon Cooper, mas a verdade é que sou fascinada por trens – mais especificamente, filmes com trens. O trem é meio de transporte, é metáfora para viagem e jornada, corta o frame e horizonte, pode ser causa mortis, elemento-chave de comédia ou tragédia. O trem está presente no começo, meio e fim de “Kasa Branca”, partindo da Central do Brasil e correndo pelos trilhos enquanto nosso protagonista observa e vive uma contagem regressiva.

O jovem Dé (Big Jaum) cuida da avó com Alzheimer, dona Almerinda (Teca Pereira). Ele precisa parcelar as fraldas e os medicamentos usados pela avó no cartão de crédito de um amigo, para quem promete pagar depois, e não tem condições de arcar com o aluguel da branca casinha onde ele e a avó vivem. Como a idosa precisa de cuidados 24 horas por dia, é impossível para Dé arranjar um emprego.

Quando sai com os amigos, Dé por vezes deixa a avó com a amiga Talita (Gi Fernandes), mãe de uma menina pequena e cujo ex-namorado está fazendo de tudo para que ela perdoe uma traição. É com os amigos que Dé pode contar sempre, pois seu pai (Babu Santana) se afastou, mas segue morando e trabalhando como pedreiro no Rio de Janeiro. Dé liga para ele, mas não consegue dizer nenhuma palavra.

A situação passa a ser insustentável. Dé deve três meses de aluguel e sua avó não tem previsão de melhora, só piora. O jovem e seus amigos começam a pensar em maneiras de juntar dinheiro não apenas para o aluguel, mas para os remédios de cuidados paliativos. Enquanto isso, Dé permanece olhando as estrelas e embalando dona Almerinda na cadeira de balanço, enquanto ouve a música que diz “vou buscar quem more longe, sonho meu”.

A princípio a atuação de Teca Pereira pode não parecer nada demais, afinal, ela fica parada com o olhar ao longe. Mas sabemos que a mente funciona, de modo que para nós é alheio, a mil por hora. Assim como na atuação de Fernanda Montenegro no filme mais comentado da temporada, a performance de Teca, com muito mais tempo de tela, se ancora no olhar que diz: ainda estou aqui.

O ator Luciano Vidigal faz sua estreia como diretor solo em “Kasa Branca”, e escolhe contar uma história real para desmistificar as narrativas só sobre violência que em geral são contadas acerca das favelas. Sobre o projeto, declara:

“É um filme que tem um protagonismo negro no lugar do objeto, que são os atores, no lugar do sujeito, eu como diretor. Então, você tem a figura preta ali como protagonista no elenco e também na criação. E a gente que faz cinema independente, cinema preto, busca essa relação horizontal com o audiovisual brasileiro. E sempre no objetivo de somar, de trazer essa diversidade potente e cultural que tem o nosso país”

Uma música muito popular diz que “a vida é trem-bala, parceiro, e a gente é só passageiro prestes a partir”. A escolha de colocar lado a lado uma mulher no fim da vida com seu neto mal começando sua própria vida não é original, mas nunca deixa de emocionar. Para além da relação deles, é mais forte e mais o foco do filme a força das amizades de Dé. Se um ditado popular fosse necessário para descrever “Kasa Branca”, com certeza seria este: quem tem amigos tem tudo.

Kasa Branca

Kasa Branca
8 10 0 1
Nota 8/10 Excelente
Nota 8/10 Excelente
8/10
Total Score iExcelente

Deixe um comentário

Sugeridos
Image
EsportesEtc.Filmes

Casinos e jogos de casino icónicos no cinema e na televisão

Destaque de capa Os casinos aparecem no cinema e na televisão há...

Geroge Lucas Museum
Artes VisuaisFilmesNotícias

Por dentro do gigantesco novo museu de George Lucas

O Lucas Museum of Narrative Art (Museu de Arte Narrativa), em Los...

SFII
FilmesTrailersVideos

Novo trailer de ‘Street Fighter’ reúne golpes clássicos e icônicos dos videogames

Prévia destaca Shoryuken, chutes relâmpago de Chun-Li e o elenco estrelado que...

Festival do Rio
AgendaFestivaisFilmes

Festival do Rio reúne filmes premiados em Cannes, Berlim, Veneza, Toronto, San Sebastián e Sundance

Lista reúne obras premiadas e diretores consagrados como Hirokazu Kore-eda, Asghar Farhadi,...

Patrullaje
AgendaFestivaisFilmes

Soy Loco por Ti, Centroamérica

Uma cinematografia ainda pouco conhecida no Brasil, mas que vem conquistando espaço...

Thor em Doomsday
FilmesNotícias

Rumor de ‘Vingadores: Doutor Destino’ aponta confronto épico entre Thor e Doutor Estranho

Especulação indica que o Deus do Trovão enfrentará uma variante sombria do...

Street Fighter trailer jogável
FilmesGamesTrailersVideos

‘Street Fighter’ Inova ao Lançar Trailer Jogável em Clima de Arcade Anos 90

Prévia interativa no YouTube Playable permite que fãs executem combos e golpes...

Tim Curry
AstrosFilmes

Tim Curry (1946–2026): O Sorriso Sombrio que Iluminou a Cultura Pop

De cientista louco de salto alto em Rocky Horror a palhaço demoníaco...

Nosso Segredo Cinema Filme BSBArt 2 1024x549
CríticasFilmes

Nosso Segredo: A Materialização do Luto e a Casa-Quilombo de Grace Passô

Duas décadas após transformar o teatro brasileiro com a peça Amores Surdos,...