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La La Land traz sopros de lembranças deliciosas dos musicais clássicos de Hollywood

La La Land: Cantando Estações, o grande ganhador do Globo de Ouro de 2017 (venceu as sete categorias a que concorria) atingiu em cheio um secreto anseio que as plateias possuem pelo lúdico.

Emma Stone e Ryan Gosling são dois atores versáteis, que apesar de interpretarem bem papéis dramáticos, parecem extremamente à vontade em tramas mais leves, e arrancam risadas da plateia com facilidade. Dois dos traços mais marcantes de Emma como atriz são sua naturalidade e seu carisma. Ela é uma dessas atrizes que, como Jennifer Lawrence, conquistam o público por parecerem pessoas reais, com quem poderíamos ter uma conversa em um bar ou cantar junto em um karaokê. Além disso, ambas fazem parte de uma geração de jovens mulheres que atuam cada vez mais em papéis de personagens femininas fortes, donas de seus próprios destinos. Estas descrições me lembram um pouco duas de minhas atrizes favoritas: Audrey e Katharine Hepburn.

Agora vamos olhar para o homem neste par: Ryan Gosling. Gosling tem o dom de gerar empatia. Até mesmo esmagando a cabeça de outro homem dentro de um elevador, em Drive, seguimos ao seu lado, completamente conectados emocionalmente. Ele consegue expressar com sutilezas diversas emoções sem dizer uma palavra. E, como se não bastasse, é extremamente charmoso. O que me leva à segunda comparação da noite com outros atores cujo auge se deu nos anos 40: Spencer Tracy ou Cary Grant.

Antes de qualquer coisa, o filme já começa com um trunfo na mão, que é esta dupla.

A química do casal de atores, que faz parecer estarem improvisando os diálogos na tela – onde já apareceram juntos outras vezes, como em Amor à toda prova e Gangster Squad – reforça ainda mais possíveis comparações com este tipo de dupla recorrente de pares românticos nos clássicos de Hollywood.

Os dois dançam e cantam. Ele, além disso, toca piano, relembrando ao ator uma habilidade sua há tempos esquecida. As coreografias não são tão elaboradas e suas vozes não são potentes, mas ambas cumprem o papel com eficiência. Emma Stone tem uma voz doce e delicada, e Ryan Gosling, uma voz ligeiramente rouca e grave, nos remetendo bem de leve ao maravilhoso Chet Baker. Os diretores souberam aproveitar o melhor que ambos tinham à oferecer em todos os requisitos mencionados.

Agora, vamos ao filme em si.

A primeira sequência surge para dar o tom da narrativa. Em meio a estresses e banalidades do dia a dia, como um engarrafamento, é permitido dançar e cantar. Pronto. De cara, as roupas coloridas de tons primários fortes e a câmera que filma em planos-sequência, reenquadrando os movimentos dos atores a cada instante, como se participasse da dança, já nos mostram o que podemos esperar nos próximos 120 minutos.

Mesmo que exista esta licença poética que permite com que pessoas normais comecem a cantar do nada, o filme segue o padrão de alguns famosos musicais, nos quais a trama se desenrola em torno de uma temática artística. Nossos personagens centrais são uma atriz e um músico que vivem em Hollywood. Dessa maneira, o salto não é tão grande e o público consente com mais tranquilidade os arroubos coreográficos. Apenas para mencionar, alguns dos que seguiram esta linha foram Cantando na Chuva e A Roda da Fortuna.

A história de La La Land é sobre dois artistas cujo o sonho é conseguir se expressar através de suas artes, que se esbarram, e se esbarram novamente, como em qualquer clássico hollywoodiano. Como se o destino e as estrelas estivessem alinhados para este encontro. Os dois estão passando por momentos difíceis de suas vidas, nos quais os recursos para acreditar que seus sonhos sejam passíveis de serem realizados estão acabando e, neste encontro amoroso, encontram também o apoio necessário para motivá-los a seguir em frente. Não quero contar mais nada pra não estragar. Posso dizer apenas que o desfecho tentou desviar do caminho tradicionalmente percorrido, trazendo um pouco mais de realismo, mesmo que de maneira generosa.

Tenho algumas críticas de um olhar minucioso que se incomodou com algumas escolhas de iluminação e que esperava momentos e danças mais audaciosos. Pois, com tantos pontos em comum com os musicais antigos, ficou difícil segurar a vontade de voltar no tempo. Mas não se pode esperar que Gosling e Stone façam o que Fred Astaire e Ginger Rogers faziam. Esta não era a proposta deste filme. Ele não faz parte de uma época em que existe uma máquina que produz musicais para o cinema.

Apesar destes preciosismos e de uma pulga atrás da orelha quanto a alguns momentos em que o foco deixa a desejar – detalhe técnico esse que ainda preciso averiguar se foi resultado de um foquista inexperiente ou de um projecionista distraído – creio que a grande vitória de La La Land é fazer parecer possível construir um musical hoje em dia, em uma escala mais humilde, em cenários menores, com figurinos e iluminações menos rebuscados. Os melhores momentos do filme são aqueles em que a criatividade e a artesania se fizeram vistos. Uma sequência de aproximadamente 10 minutos no final do filme é o resumo do que quero dizer. Para mim, são os melhores 10 minutos de todos.

De certo modo, o filme traz de volta a essência dos musicais. Uma certa pureza e ludicidade, como mencionado no início. E não de forma artificial, mas nos levando de mãos dadas através da trajetória destes dois personagens que se cruzam e se conectam. Outro grande trunfo do filme é a complexidade em torno da discussão que permeia a trama: a busca por sucesso e satisfação como artistas. Até onde percorremos ideias nas quais realmente acreditamos? Ou será que muitas delas nos são vendidas como as melhores? Qual a medida de nossa felicidade e que tipo de sacrifícios estamos dispostos a cometer para atingí-la?

O clima é romântico, naquilo de melhor que esta palavra tem a oferecer. Romantismo ganhou conotação de brega no século XXI. É algo ultrapassado. Mas como tudo que é bom e merece ser preservado, tais quais o jazz e os musicais, sempre há alguém em algum cantinho do planeta levando a tradição adiante.

Filme: La La Land: Cantando Estações (La La Land)
Direção: Damien Chazelle
Elenco: Emma Stone, Ryan Gosling, John Legend
Gênero: Musical
País: EUA
Ano de produção: 2016
Distribuidora: Paris Filmes
Duração: 2h o8min
Classificação: 12 anos

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Publicado por Raquel Gandra

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