Hoje começo a coluna semanal Lado B, um espaço dentro do Ambrosia onde falarei sobre filmes, livros, quadrinhos e jogos desconhecidos por muitos e considerados um tanto “lado-b”. O intuito é divulgar diversos trabalhos que por infelicidade não vingaram e não obtiveram o sucesso e reconhecimento merecidos!

Para a estréia da coluna, decidi falar um pouco sobre o filme de ficção científica Inimigo Meu, um clássico da Sessão da Tarde, mas que ainda assim passou despercebido por muitos fãs do gênero. O filme americano foi dirigido por Wolfgang Petersen (conhecido por ter sido roteirista da adaptação cinematográfica do livro História Sem Fim) e chegou aos cinemas em 1985, não fazendo sucesso nas bilheterias e perdendo espaço para outras atrações hollywodianas, apesar de possuir efeitos especiais de alta qualidade para a época e que hoje em dia conseguem ser bastante satisfatórios.
O enredo mostra a guerra intergaláctica entre os terráqueos e os habitantes do planeta Dracon, povos que entraram em conflito pela ambição da conquista e domínio do universo, dando continuidade a constante busca de riquezas e degradação do meio. Entre batalhas, naves e um futuro sci-tech até nos dentes, conhecemos o piloto Willis Davidge (Dennis Quaid), onde ao proteger sua supostamente os únicos habitantes daquele mundo perdido, estão dispostos a destruírem-se mutuamente, entretanto as necessidades de sobrevivência perante uma natureza destrutiva mostram-se mais importantes que raça, espécie ou culturas divergentes. O draconiano, um curioso réptil hermafrodita, apresenta-se como Jerry (Louis Gosset Junior) e acaba adotando Willis como seu pupilo, ensinando sua língua, introduzindo-o em sua cultura ancestral e mostrando o outro lado da história.

Muitas surpresas e cenas comoventes recheiam o filme do início ao fim: a solução para os meteoros, a gravidez de Jerry, a chegada dos mineradores escravagistas, a loucura em estar isolado de seu povo, etc. Prefiro não descrever mais para não acabar com a graça! O que posso dizer é que a crítica do filme serve de base para refletir de forma mais cuidadosa sobre a questão da guerra, algo que existe desde o início da humanidade e que acredito que só terminará com o fim da mesma, sobre o racismo, a xenofobia e também sobre o preconceito e falta de discernimento sobre outras culturas, outro fator que tende gerar conflitos. Ainda que abordado de uma forma simples e até um pouco ingênua, Inimigo Meu é um prato cheio para quem adora antropologia e sociologia ambientadas em mundos imaginários (adoradores da escritora Ursula K. Le Guin abrirão largos sorrisos):
Willis representa o típico homem pós-moderno, fragmentado, perdido e confuso. Caracterizado por sua ambição, escapismo, arrogância, medo e angústia em se encontrar só, passa por um processo de identificação com Jerry, onde aprende sobre seus costumes e passa a também ser um draconiano, sendo a conclusão da leitura do guia espiritual de Jerry o desfecho desse “ritual de passagem”. A questão da fragmentação também é intensificada no momento em que precisa criar sozinho o jovem réptil Zammis (Bumper Robinson), filho de Jerry, ironicamente ensinando-o sobre a cultura do planeta Dracon. O jovem também implica em algumas questões, principalmente quando sofre por não poder se identificar como sendo um draconiano.

Deixo aqui como curiosidades que o filme é uma releitura do longa-metragem de guerra Inferno no Pacífico e já foi citado como sendo “tudo que Star Wars queria ser e não conseguiu”. Intrigante, não?
Aguardarei os comentários e espero que muitos decidam assistir, pois é uma pérola em um mar de estereótipos no gênero sci-fi. É triste ver que roteiros brilhantes são tão desvalorizados assim!







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