Living the Land: drama familiar sobre um passado fugaz

Existem centenas, talvez mesmo milhares, de festivais de cinema ao redor do mundo. Mas alguns, por sua tradição e longevidade, são os mais badalados e um prêmio num deles significa chancela de qualidade. O Festival de Berlim acontece desde 1951 e é um dos cinco maiores festivais de cinema do mundo. Ele está prestes a…


Living The Land (Sheng Xi Zhi Di), de Huo Meng crédito Autoral Filmes (6)

Existem centenas, talvez mesmo milhares, de festivais de cinema ao redor do mundo. Mas alguns, por sua tradição e longevidade, são os mais badalados e um prêmio num deles significa chancela de qualidade. O Festival de Berlim acontece desde 1951 e é um dos cinco maiores festivais de cinema do mundo. Ele está prestes a acontecer de novo e por isso é ocasião de olhar para vencedores do passado. O caso em questão: o vencedor do Urso de Prata de Melhor Diretor de 2025, Huo Meng, e o filme que lhe rendeu o galardão: “Living the Land”, um belo drama familiar ambientado num passado recente, mas inalcançável.

Enquanto passam os créditos, nosso narrador-personagem nos situa: estamos na primavera de 1991. O verão que se avizinha não traz promessa de vida, mas sim de morte: começamos com Chuang (Wang Shang) acompanhando seus familiares para transportar ossos de um cemitério para outro terreno. Esse início nos permite um vislumbre do sepultamento e do luto em outra cultura, na qual carpideiras são desnecessárias porque os próprios membros da família se encarregam de fazer um escândalo no funeral.

Os corpos são enterrados, o altar de oferendas é queimado e a vida segue. Os pais de Chuang, que moram longe e vieram para o funeral, voltam para casa e deixam novamente o menino sob o cuidado dos avós. Chuang vai à escola e logo tem o recesso para a colheita do trigo – que pode ser completamente arruinada se não houver celeridade e lonas plásticas com que cobrir o trigo quando chove.

Living The Land (Sheng Xi Zhi Di), de Huo Meng crédito Autoral Filmes (1)

Os tempos são de novidades para a família de Chuang. Yun tem o terceiro filho, algo proibido pela lei chinesa e pelo planejamento familiar. O primo deficiente mental Jihua (Zhou Haotian) é alvo de zombarias dos meninos do vilarejo. A tia Xiuying (Zhang Chuwen) dispensa um pretendente porque já está de olho em outro. Mas não cabe a ela decidir seu destino. E aqui, mais uma vez, vemos práticas culturais curiosas.

Como você pode perceber pela atabalhoada sinopse, “Living the Land” não é um filme que se define por grandes feitos dos personagens ou acontecimentos extraordinários. É sobre a vida, essa que mal percebemos passar porque estamos esperando algo grandioso acontecer conosco. É a vida, coroada com a simplicidade de frases como “quando eu crescer, eu compro um picolé, tá?”. Sendo assim, o filme segue outras produções orientais, como o muito elogiado “Dias Perfeitos”, que por sua vez se passa num contexto urbano.

Enquanto aram a terra, um idoso chega para conversar e é informado de que uma máquina moderna norte-americana faria aquele serviço em muito menos tempo, substituindo a mão-de-obra de centenas. Ele pergunta então o que restaria aos fazendeiros fazer se tivessem essa máquina. “Andar à toa se divertindo” é a possibilidade que ele aventa. Estamos no filme focando numa China rural que quase por inteiro ficou no passado, conforme Huo Meng declara:

Eu queria retratar como, quando políticas sociais coletivistas colidiram com tradições moldadas ao longo de milênios, as pessoas foram forçadas a se adaptar de maneiras que desafiaram seu próprio modo de vida. […] O filme explora o profundo impacto deste momento histórico nas tradições, emoções e relacionamentos do povo chinês. Como um vento imparável, essas mudanças varreram todos os aspectos da vida

Living The Land (Sheng Xi Zhi Di), de Huo Meng crédito Autoral Filmes (1)

Este é mais um filme saudosista, sobre uma infância e uma realidade rural há muito superadas, mas que deixaram saudades. Filmes também podem ser cartas de amor, e não apenas endereçadas a pessoas. “Living the Land” pode poeticamente ser assim resumido: uma carta de amor em forma de filme.

NOTA 7 de 10

Living the Land

Living the Land
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