Mamãe é de Morte (1994), um retrato subversivo da familia norte-americana por John Waters

Mamãe é de Morte (1994), um retrato subversivo da familia norte-americana por John Waters – Ambrosia

Beverly Sutphin leva uma vida como a dona de casa perfeita, casada com seu marido dentista (Sam Waterston), e com dois filhos adolescentes (Ricki Lake e Matthew Lillard). No entanto, ela acaba matando seus vizinhos por motivos fúteis, como também o professor de matemática de seu filho e o namorado. Ela é presa e é apelidada de ‘Serial Mom’ pela mídia. No julgamento, Beverly decide conduzir sua própria defesa, expondo os segredos sujos e as hipocrisias das testemunhas trazidas para condená-la.

Em 1994, o conhecido diretor do trash/transgessivo John Waters (1946) lançou o filme Serial Mother. Há quem diga que tudo o que Waters fez desde então sobre Polyester (1981) foi um fracasso comercial. Necessariamente podemos não concordar, pois o diretor trabalha com equipes de produção profissionais e nomes famosos como Debbie Harry, Johnny Depp, Melanie Griffith, Christina Ricci, Kathleen Turner e Sam Waterston. Mais ainda, Waters deixou para trás muitos dos ataques ultrajantes ao bom gosto que transformaram filmes como Pink Flamingos (1972) e Problemas Femininos (1974) em cults.

A irreverência de seus primeiros filmes para produções mais convencionais, mas que traziam uma temática que lembra essa fase. Mamãe é de Morte (Serial Mom) reproduz os temas de John Waters – a alegre rebelião contra tudo o que é considerado de bom gosto, a glorificação da celebridade criminosa. Ao retratar uma mulher perfeita (mãe ideal, cozinheira exemplar, membro exemplar do Conselho Escolar), mas uma supermãe que na verdade esconde sob seu verniz uma natureza mais sombria.

Mamãe é de Morte (1994), um retrato subversivo da familia norte-americana por John Waters – Ambrosia

Interpretada pela genial Kathleen Turner como essa dona de casa desesperada à beira de um colapso nervoso, a protagonista não tolera que nenhum membro de sua família seja contrariado. Donde a sua propensão para fazer desaparecer em circunstâncias misteriosas todos os que não respeitam este imperativo. O humor negro é incrivelmente feroz e sob o exterior de uma farsa macabra, Mamãe é de Morte de fato desconstrói todas as falhas da família americana moderna. Impressionante e hilário, o longa-metragem não se prende apenas a uma simples revelação de defeitos ocultos, mas também se preocupa em descrever seus personagens e dar-lhes consistência real.

É escandalosomente provocativo: a ideia é colocar o conservadorismo e o puritanismo americanos em julgamento de forma contundente, tudo pelos olhos de uma dona de casa psicopata. Dentro dessa sofisticação sangrenta, divertimos de um universo tão irresistível quanto assombrado pela mais insuportável escuridão. Note-se também o óbvio prazer de John Waters em subverter a imagem glamorosa e politicamente correta de Kathleen Turner (acostumada aos cineastas Lawrence Kasdan, Robert Zemeckis, John Huston e até Francis Ford Coppola), que deliberadamente opta por ridicularizar a si mesma, ela que passou do símbolo sexual para alcoólatra na lista negra. Uma obra nem sempre julgada pelo seu justo valor e por isso essencial.

Patsy Grady Abrams

Homenagem Póstuma (1933-2023)

A atriz Patsy Grady Abrams faleceu, inesperada e pacificamente, após um ataque cardíaco, no dia 03 de janeiro, aos 89 anos. Fez o papel em Mamãe é de Morte (1994) da Sra. Emmy Lou Jenson, espancada até a morte com uma perna de cordeiro pela personagem de Kathleen Turner.

Mamãe é de Morte (1994), um retrato subversivo da familia norte-americana por John Waters – Ambrosia
Mamãe é de Morte (1994), um retrato subversivo da familia norte-americana por John Waters

Nasceu na Filadélfia em 25 de outubro de 1933, a mais velha de quatro filhos. Suas reuniões familiares irlandesas eram animadas com música e risadas, duas joias que Patsy manteve por toda a vida. Aos 15 anos começou sua carreira em show de calouros e comerciais, depois entrou na Marinha, como operadora de vôo. Após a passagem militar, se mudou para Washington, DC, onde por anos foi a cantora principal em boates da cidade, trabalhando com músicos como Sammy Davis Jr. e Johnny Mathis, com artistas como comediante Don Rickles e o humorista político Mark Russell. Patsy se casou com o pianista de sua banda, Earle Abrams, em 1957 e se apresentaram juntos por 65 anos.

Aos 58 anos, Patsy não podia mais ignorar seu sonho de ser atriz. Com o incentivo de Earle, ela se mudou para Los Angeles e se matriculou em aulas de atuação enquanto fazia testes e conseguia alguns bons papéis como no filme de John Waters, Enlouquecendo Meu Guarda-Costas (1996), O Preço da Fama (1998), Inimigo do Estado (1998), entre outros.

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