De início, preciso fazer esta declaração: não, não sou parente de Sidney Magal, embora compartilhemos o sobrenome. Mas eu bem gostaria que fosse. Mais que um grande ídolo, Sidney é um ícone da música popular brasileira, ocupando as mentes e principalmente os corações de milhões que o ouviram seja na TV, seja nos shows. “Me Chama que Eu Vou”, recém-chegado documentário sobre Sidney, consegue entregar o esperado do gênero, e também ser irreverente como o biografado.
Descrito por um apresentador de telejornal como “misto de Elvis Presley e John Travolta” já no minuto inicial do documentário, sabemos estar tratando de uma figura ímpar. Ele, que sempre quis levar vida de artista e que nunca se desculpou por ser narcisista, teve um começo de carreira inusitado: era incentivado pela mãe – que era prima de Vinicius de Moraes – a cantar, e logo depois foi ela que seguiu os passos do filho e lançou-se como cantora.Nesse momento, vemos na tela fotos antigas da família, com a narração do próprio Sidney.
Com a ajuda do empresário argentino Roberto Livi, Sidney Magal estoura, fazendo sucesso direto na televisão. Surgem logo acusações de que ele seria um artista “fabricado”, lapidado exatamente para agradar ao público – hoje seria o caso de falarmos sobre um artista escolhido pelo algoritmo. Mas o próprio Sidney sai em sua defesa, declarando que talento ele sempre teve, e o visual foi aprimorado numa turnê pela Europa.

Sempre sabendo dividir muito bem a vida pessoal da vida profissional – ou, como ele mesmo diz, separar Sidney de Magalhães de Sidney Magal -, o cantor traz a família para frente das câmeras sem contudo explorá-la de maneira impiedosa. O assédio das fãs não deixa de ser mencionado, mas não se coloca como um empecilho nem para Magal nem para Magalhães. Os altos e baixos da carreira não são escondidos, nem as mudanças de visual que geraram arrependimentos. Nos tempos das vacas magras, Sidney lançava-se a novos desafios, como atuar em musicais, filmes e televisão.
As fontes usadas no documentário são muitas e variadas: trechos de entrevistas na televisão, clipes musicais, recortes de jornais e muito material acumulado pelo próprio Sidney e armazenado em sua residência, um verdadeiro clipping pessoal que com certeza foi de grande valia como material de pesquisa para fazer “Me Chama que Eu Vou”.
A diretora Joana Mariani conheceu Sidney Magal no começo dos anos 2000, quando foi assistente de direção do clipe “Tenho”. O trabalho evoluiu para uma amizade que só se fortaleceu com o tempo. Segundo Joana, “A cada encontro, as histórias de vida, das experiências e ‘causos’ contados por ele fascinavam a todos. Sidney Magalhães é uma figura deliciosa, muito diferente da personagem que ele criou para sua vida artística, o Sidney Magal.” E que bom que Joana decidiu compartilhar essas histórias conosco. E que ótimo que Sidney Magal tenha topado a ideia de compartillhá-las.

Muitos temas surgem nos parcos 70 minutos do documentário: a já mencionada mas não discutida à exaustão divisão entre público e privado, o preconceito com a música popular, a dificuldade de definição da “música brega” e também do que é cult. Tudo é muito bem concatenado, num filme que ganhou o prêmio de Melhor Edição no Festival de Cinema de Gramado de 2021.
Com entrevistas e gravações inéditas e muito à vontade de Sidney Magal, “Me Chama que Eu Vou” joga nova luz no intérprete de canções tão enraizadas na nossa mente quanto “Sandra Rosa Madalena”. Do superídolo cigano ao homem de família, do ícone brasileiro da lambada ao senhor que se contenta com catar folhas de cajueiro da piscina de casa: existem sim, dois, Sidney Magal e Sidney de Magalhães, ambos fascinantes – e que merecem ser descobertos por um público que já o ama.









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