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“O Doutrinador” empolga como filme de ação, mesmo cometendo alguns pecados

Uma das coisas que mais tem sido questionada a respeito do cinema nacional dos últimos anos é por que nossos realizadores não conseguem fazer filmes de gêneros que fujam daqueles que se tornaram tradicionais na recente filmografia como comédias (com estilo televisivo muito forte), dramas e (em menor grau) documentários e infantis. Poucos se arriscam no terror, no suspense e, principalmente, na ação e na aventura. Portanto, é louvável o lançamento de “O Doutrinador” (idem, 2018), que traz uma qualidade técnica impecável para levar para a telona um personagem de quadrinhos brasileiro, que, ainda por cima, tem uma proposta que se alinha perfeitamente aos problemas éticos e morais que o país vive atualmente. Temos um filme com uma forte pegada pop que agrada facilmente ao espectador. Porém, há alguns elementos essenciais que, por não serem trabalhados com maior cuidado, acabam por tornar o resultado final um pouco frustrante em vista de todo o potencial que o filme tinha.

Inspirado nos quadrinhos de Luciano Cunha, criados em 2008 e publicados em 2013, o filme se passa na fictícia cidade de Santa Cruz, onde vive Miguel (Kiko Pissolato), um agente federal com várias habilidades, que participa de uma força especial para combater a corrupção.

Uma tragédia pessoal faz com que Miguel se torne obcecado em fazer justiça e, após um protesto contra o político corrupto Sandro Correa (Eduardo Moscovis), se torna o Doutrinador, um vigilante implacável disposto a tudo para executar todos os criminosos de colarinho branco, cujo “líder” é o empresário Antero Gomes (Carlos Betão). Auxiliado pela hacker Nina (Tainá Medina), Miguel mergulha de cabeça a sua cruzada para acabar com o grupo. Só que, à medida em que suas ações vão ganhando cada vez mais notoriedade, o cerco se aperta contra ele, que passa a ser perseguido por seus colegas de trabalho, como o parceiro Edu (Samuel de Assis) e seu chefe, o delegado Siqueira (Tuca Andrada), assim como os políticos de ficha suja.

Foto: Aline Arruda

A principal qualidade de “O Doutrinador” está na habilidade do diretor Gustavo Bonafé (auxiliado pelo co-diretor Fábio Mendonça em criar competentes cenas de ação que não ficam a dever a boas produções estrangeiras do gênero. A tensão e sensação de emergência destas sequências fazem com que o personagem, uma mistura de Batman (da DC Comics), Justiceiro e Demolidor (ambos da Marvel) fazem com que ele se torne interessante anti-herói, embora vale ressaltar que há momentos em que os cineastas exageram demais e passam um pouco do ponto da verossimilhança.

Outro ponto de destaque do filme está na impecável fotografia de Rodrigo Carvalho, que usa diversos planos aéreos e uma iluminação que remete ao colorido dos quadrinhos, além de fazer de Santa Cruz uma interessante mistura de várias metrópoles brasileiras como São Paulo e Brasília.

Foto: Aline Arruda

No entanto, o filme peca justamente num dos elementos mais importantes para que um projeto como esse consiga funcionar perfeitamente: o roteiro. O texto, escrito a 14 mãos (!!!) por Mirna Nogueira, LG Bayão, Rodrigo Lages, Denis Nielsen, Guilherme Siman, Gabriel Wainer e pelo próprio Luciano Cunha, simplifica demais as questões levantadas sobre corrupção e justiça pelas próprias mãos que, mesmo sendo uma obra de ficção, deixa o filme um pouco raso demais até mesmo para o gênero. Para piorar, os roteiristas não encontraram soluções melhores para sequências-chaves da história, como por exemplo a cena em que o protagonista “constrói” o seu visual de Doutrinador, ou mesmo as atitudes de alguns personagens, que se comportam de um jeito numa sequência, para logo depois mudar suas atitudes, sem maiores explicações.

Felizmente, os realizadores não erraram na hora de escolher o seu elenco. Kiko Pissolato, ainda pouco conhecido do grande público, mostra vigor e bastante fiscalidade para encarar o perturbado personagem-título nas cenas de luta e ação, mesmo que não convença tanto nos momentos que exigem mais dramaticidade. Quem se sai melhor neste último quesito é Tainá Medina, que dá uma humanização necessária para a sua hacker Nina, que não existe nos quadrinhos, e aqui é uma espécie de Lisbeth Salander (personagem da série de livros “Millenium”, que já ganhou três intérpretes no cinema).

 

Samuel de Assis não tem muito o que fazer com o seu Edu, mas também não decepciona. O ator Carlos Betão parece estar se especializando em fazer personagens de caráter dúbio e, aqui, ele se destaca como o maquiavélico Antero Gomes, nitidamente inspirado em políticos como Antônio Carlos Magalhães e o ex-presidente José Sarney. Já Natália Lage, que interpreta Isabela, a ex-mulher de Miguel, também faz um bom trabalho, mesmo aparecendo pouco. Uma pena, no entanto, que atores consagrados como Eduardo Moscovis, Tuca Andrada e Helena Ranaldi sejam pouco acionados. A participação de Marília Gabriela, como uma juíza um tanto suspeita, é curiosa, mas não vai muito além disso.

Foto: Aline Arruda

“O Doutrinador” vale ser conferido pela qualidade como filme de ação, que trata de um tema tão familiar para os brasileiros em geral que podem até se identificar com o problema apresentado na trama, mas que nunca deixa de lado a sua intenção de entreter, o que ele consegue mesmo com suas visíveis falhas. Além disso, o filme serve como um bom aperitivo para a série de TV que será lançada em 2019 e, se for bem sucedido nas bilheterias, pode gerar um novo filão para as produções tupiniquins, que merecem explorar nichos diferentes e maior reconhecimento do público. Afinal, a mudança que muitos querem para o nosso país também pode passar pela sétima arte, sendo ela pop ou não.

Cotação: 3,5/5 – Bom.

Filme: O Doutrinador
Direção: Gustavo Bonafé
Elenco:  Kiko Pissolato, Tainá Medina, Samuel de Assis, Carlos Betão, Tuca Andrada, Natália Lage, Eduardo Moscovis, Marília Gabriela
Gênero: Ação/Aventura
País: Brasil
Ano de produção: 2018
Distribuidora: Downtown Filmes/Paris Filmes
Duração: 1h50min
Classificação: 16 anos

Publicado por Célio Silva

Sou um cara que, desde que viu Flash Gordon na telona, com 7 anos de idade, sempre foi apaixonado por cinema. Também curto muito TV, música e livros. Mas é na sétima arte que sinto o maior prazer.

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