O Enigma de Outro Mundo (Who Goes There?) de John W. Campbell

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O Enigma de Outro Mundo (Who Goes There?) é uma novela de John W. Campbell, publicada originalmente sob o pseudônimo de Don A. Stuart em 1938, considerada uma das melhores histórias de ficção científica de todos os tempos. Foi adaptado para o cinema três vezes, primeiro sob o título O Monstro do Ártico (The thing from another world, de Christian Nyby, 1951 – embora o ator principal Kenneth Tobey diga que foi o produtor, Howard Hawks, quem o dirigiu, e que Nyby filmou apenas uma cena- um dos piores filmes que existem e que não merece ser visto), depois com o de O Enigma de Outro Mundo( The Thing, 1982), de John Carpenter, e que é considerado um dos 3 ou 4 melhores filmes de ficção científica/terror da história e o mais recente, o prequel A Coisa (2011), dirigido por Matthijs van Heijningen Jr.

Foi a partir da versão de Carpenter que o romance foi redescoberto, hoje mais conhecido pelo título do filme do que pelo original. Versão lida foi da Editora Diário Macabro.

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UMA BREVE SINOPSE

Na Antártida, cientistas que estudam o pólo magnético secundário descobrem uma antiga nave espacial enterrada no gelo, caída na Terra há milhões de anos. E encontram um corpo congelado de um dos tripulantes. Enquanto o grupo discute o que fazer com aquela criatura, ela descongela e volta à vida, tornando-se um perigo para todos os membros do grupo. A criatura pode assumir forma, personalidade e memórias de qualquer ser vivo, ao combinar o material genético de ambos. A criatura pode ser qualquer pessoa, e quando todos os homens do grupo tomam conhecimento desse fato, começa um vertiginoso jogo de gato e rato sob as lentes da paranóia. Todos desconfiam de todos, mas não há dúvida de que pelo menos um ainda é humano (caso contrário, já teria sido atacado).

Após algum conflito, os membros sobreviventes chegam a um acordo: ao entenderem que cada parte do monstro, mesmo uma simples gota de sangue, é uma entidade em si, pegue uma amostra e aplique calor nela, a amostra reagirá e será possível saber quem foi convertido e quem ainda é humano. Ao descobrir isso, resta destruir cada novo broto do ser.

FICÇÃO CIENTÍFICA OU TERROR?

Title Page.jpgA versão cinematográfica dos anos 1950 é uma das primeiras obras a explorar o terror xenófobo do pós-guerra, quando os gringos deixaram de temer os monstros clássicos (vampiros, múmias, cientistas loucos) para se concentrarem em outros medos mais específicos: a invasão chinesa, a guerra atômica e o outro como inimigo, que se enraizou numa sociedade já racista, até ser sublimado nessas visões de horror cujo ápice e maior expoente é o filme Alien( 1979) de Ridley Scott.

Publication: Who Goes There?

A narrativa original inaugura uma longa tradição que combina ficção científica e terror. Classifica-se como ficção científica devido a seus temas: a existência de um organismo extraterrestre, a explicação técnica de sua adaptação ao ambiente desconhecido da Terra e o mecanismo utilizado para identificar os infectados. No entanto, o tratamento dado a esses elementos é próprio do gênero de terror: a estrutura de descoberta é apresentada de forma única, com o monstruoso sendo revelado desde o início. A sensação de medo é intensificada por diálogos progressivamente mais frenéticos, refletindo o medo paranóico dos personagens.

Frankenstein, or the Modern Prometheus | Culture | Critic Te Ārohi

Mary Shelley, com seu Frankenstein ou o Moderno Prometeu (1818), já havia combinado o romance de terror com elementos de uma literatura nascente que mais tarde seria chamada de ficção científica. No entanto, o esforço da autora não foi consciente; ela não concebeu sua obra-prima como uma mistura de dois gêneros distintos. Tanto ela quanto seus leitores continuaram a ler Frankenstein como uma obra de terror, e até mesmo de terror gótico. Não por acaso, “era uma noite escura e tempestuosa” quando a história foi concebida.

A ficção científica é, por excelência, o gênero que explora a realidade não como ela é, mas como poderia ser. O filme de 1951 exemplifica isso ao abordar o que poderia acontecer se uma fonte de contaminação (o comunismo) não fosse contida: uma grande pandemia se espalharia pelo mundo ocidental, ameaçando exterminar a cultura e as pessoas boas. Esse mal deve ser contido e eliminado, não estudado ou compreendido. O alienígena vem de algum outro lugar, e sua origem ou motivações são irrelevantes; ele ataca e não para diante de nada.

O monstro de Frankenstein atacava por vingança, Drácula era um predador que matava para se alimentar, e o lobisomem era um homem dominado pela fúria animal. Não havia verdadeira maldade neles; seus motivos eram bem conhecidos, pelo menos para os leitores ou espectadores dos filmes. Monstros extraterrestres, por outro lado, nunca nos são conhecidos. Eles representam o mal absoluto e a estranheza absoluta. Não entendemos suas razões; apenas sabemos que, se não os destruirmos, eles nos destruirão.

Essa distorção na primeira adaptação cinematográfica prejudicou irreparavelmente o romance original, e nem mesmo a excelente versão de Carpenter conseguiu corrigir esse erro. O romance de Campbell não era anticomunista; basta lembrar que foi escrito em 1938 para provar isso.

A ORIGEM DA COISA

Who Goes There? Standard edition — Angel Bomb

A verdadeira origem deste romance não está no racismo, mas sim na admiração que o autor sentia por sua mãe e sua irmã gêmea. Admiração que, por vezes, se misturava com horror. Conforme narrado no livro de Gary Westfahl, “The Mechanics of Wonder: The Creation of the Idea of Science Fiction” (1998), quando Campbell era criança, ele não conseguia distinguir entre sua mãe e sua tia. A angústia que o menino sentiu pode ter sido a semente daquela história em que um ser se funde completamente com sua vítima até se tornar indistinguível dela.

O verdadeiro sentimento de horror, conforme explicado por Freud em “O Estranho” (1919), é uma expressão de angústia. O horror subjacente em “A Coisa” é o medo do desconhecido, um medo sem objeto definido, um medo que existe sem que se saiba exatamente por que. Freud explica que o estranho é aquilo que, sendo familiar, torna-se ameaçador e inquietante. A criatura desta história exemplifica isso de forma magistral: além do medo causado pela visão do monstro, há o pavor de sua presença invisível, o terror de saber que ele pode estar disfarçado entre eles, que qualquer um dos companheiros de confiança pode ser o monstro. Rostos familiares tornam-se estranhos e ameaçadores, assim como o rosto da mãe se tornava quando ela aparecia com sua gêmea.

Esse retrato da infância de John W. Campbell, aliado aos seus estudos de física no MIT, ajuda a compreender os antecedentes deste trabalho sem recorrer a interpretações maliciosas sobre os medos irracionais e racistas dos americanos nas décadas seguintes.

O que Campbell não escapa, no entanto, é de sua associação com os supremacistas brancos. Isso é evidente na descrição do protagonista MacReady: “um personagem de algum mito esquecido, uma ameaçadora estátua de bronze que manteve a vida e podia se mover. Com um metro e noventa de altura, […] Ele próprio era de bronze: sua longa barba era de cor bronze avermelhada, e a juba de cabelo da mesma cor; uma dureza metálica resistente à passagem do tempo moldava os traços sombrios e duros de seu rosto e as inflexões suaves de sua voz profunda.”

UM EXCELENTE ROMANCE

Apesar de suas quase oito décadas, A Coisa ainda pode ser lida como aquilo que é: uma excelente narrativa de ficção científica ou de terror. O grande estilo do autor, o desenvolvimento de um cenário claustrofóbico e de uma criatura mais sugerida do que bem retratada, mas com precisão suficiente para torná-la temível, e o sentimento de desconfiança predominante ao longo da narrativa, a posicionam merecidamente entre as obras mais queridas de todos os tempos, mesmo que apenas um pequeno grupo de leitores do gênero tenha encontrado sua versão original.

[“La mitad rota del piolet estaba aún hundida en el extraño cráneo. Tres ojos dementes, repletos de odio, brillaban con un fuego vivo, como la sangre recién derramada, en un rostro horadado por abominables nidos de gusanos que se retorcían, gusanos azules, en movimiento, que se cimbreaban donde debiera crecer el cabello […] Esa cosa no fue diseñada para expresar paz. Simplemente no poseía en su configuración ningún pensamiento filosófico como la paz”.]

O Enigma de Outro Mundo (Who Goes There?), de John W. Campbell

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Cadorno Teles
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Cadorno Teles

Cearense de Amontada, um apaixonado pelo conhecimento, licenciado em Ciências Biológicas e em Física, Historiador de formação, idealizador da Biblioteca Canto do Piririguá. Membro do NALAP e do Conselho Editorial da Kawo Kabiyesile, mestre de RPG em vários sistemas, ler e assiste de tudo.

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