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O Grande Gopnik – Crítica de Um Homem Sério, de Joel e Ethan Cohen

Finalmente um filme “judaico” dos irmãos Cohen. Depois do sombrio Onde os Fracos Não Têm Vez, ganhador do Oscar 2008,  e do pouco apreciado Queime depois de Ler, os irmãos cineastas vêm com esta nova produção que retorna com o humor negro de seus melhores filmes, repletos de personagens bizarros. Estúpidos americanos perdidos nos estúpidos subúrbios dos EUA.

A história se passa numa pequena comunidade judaica do estado de Minnesota nos anos 60. Larry Gopnik (Michael Stuhlbarg) é um tranqüilo professor universitário de física quântica, “que nunca fez nada de mal” e está prestes a ganhar uma posição de estabilidade em sua universidade. De repente, sua vida calma e pacífica começa aos poucos a soçobrar: um aluno reprovado tenta lhe subornar, sua mulher diz que está apaixonada por outro homem e pede um divórcio, seu filho adolescente é um consumidor voraz de maconha e deve dinheiro a um colega, sua filha rouba dinheiro de sua carteira, seu irmão é um sujeito passivo-agressivo que parece mais e mais condenado a uma vida sem sentido, seus superiores na faculdade começam a receber misteriosas cartas com acusações de imoralidade. É com incompreensão e incapacidade de reagir que Gopnik vai recebendo a sucessão de desgraças que ao longo do filme lhe acontecem. A poucos dias do Bar Mitzvah de seu filho, Gopnik não consegue entender o que o faz merecer seus crescentes infortúnios.

O filme é livremente baseado no Livro de Jó, uma das narrativas mais perturbadoras da Bíblia. Na introdução desta, Deus e o Diabo fazem uma aposta para testar se Jó seria capaz de sustentar sua fé diante das mais terríveis desgraças: perda da família, das terras e do gado. No filme, também há uma introdução fabular: em algum ponto remoto de uma comunidade judaica perdida no Leste Europeu, numa noite de pesada neve, um homem convida um colega conhecido para ir jantar em sua casa. Ao chegar em casa, escuta a revelação de sua mulher de que este conhecido já havia falecido há três anos de tifo e que, portanto, só poderia se tratar de um dibbuk, espírito maligno. Em seguida, para sua surpresa estarrecida, vê sua mulher golpeando com uma faca o suposto espírito. Nunca se deve convidar o demônio à sua própria residência…

Terá Gopnik herdado, através dos tempos, uma maldição por hospedar o diabo? A verdade é que seus infortúnios acontecem de maneira tão misteriosa e incerta quanto a física quântica que ensina a seus alunos. Tal como Jó, Gopnik vai buscar compreensão nos sacerdotes judeus de sua comunidade, mas como no livro bíblico, estes apenas o confundem mais e o convidam a aceitar sua sina, insinuando ter ele alguma responsabilidade por seus fardos. Como Jó, Gopnik sempre se recusa a se admitir como responsável pelo seu mal, porém ao contrário daquele, que blasfema e chega insultar a Deus, o anti-herói dos irmãos Cohen se vê preso na mais completa letargia.

O filme tem como epígrafe um provérbio hebraico que diz: receba com simplicidade o que lhe acontece. Larry Gopnik, um homem sério, se mantém no limite entre a simplicidade e a apatia, onde não agir parece para ele ter um conteúdo ético. Sua desorientação o leva a mais completa passividade, e Larry, em seus acessos de revolta, só pode reagir em patéticas crises de nervos.

Décimo-quinto longa dos irmãos Cohen, Um Homem Sério retorna ao humor negro de Fargo, grande sucesso de Joel e Ethan, onde personagens patéticos e estúpidos se metem em encrencas farsescas sob um certo olhar terno dos diretores. No entanto, há algo também da atmosfera sombria de “O Homem que não estava lá”, já que Gopnik sente às vezes a impressão de completo deslocamento em sua própria comunidade. Por outro lado, Gopnik é também parecido com The Dude, o Grande Lebowski, no filme estrelado por Jeff Bridges. Ambos são homens bons, simples e pacíficos que vêem suas vidas serem transformadas por simples casualidades sem conseguir entendê-las ou controlá-las.

Porém, O Grande Lebowski é um filme otimista, afinal de contas, que acredita que a boa vontade dos homens acaba por triunfar, enquanto Um Homem Sério é um filme totalmente pessimista, como foi também Onde os Fracos não têm vez. Estes últimos, ambos, são reflexões maduras dos diretores americanos sobre a inevitabilidade do Mal. No final deste novo filme, um tornado se aproxima no horizonte como uma espécie de punição divina apocalíptica para purgar a hipocrisia social da pequena comunidade judaica. No entanto, o apocalipse não traz consigo esboço algum de justiça: parece não haver redenção alguma para o pobre coitado Larry Gopnik.  Ou não: será preciso o espectador esperar os créditos finais para que a história esteja completa… Ainda assim, como na física quântica, haverá sempre um princípio de incerteza a pairar sobre as verdadeiras intenções dos grandes criadores.

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Publicado por Guilherme Preger

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