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O Homem dos Sonhos: uma sátira dos nossos tempos

“Um filme é um sonho”, disse o cineasta sueco Ingmar Bergman. Por milênios antes que finalmente isso acontecesse, as pessoas sonharam com imagens em movimento. Uma vez inventado o cinematógrafo e outras máquinas semelhantes para captar e depois exibir as imagens em movimento, foram filmados incontáveis sonhos, desde literais – naqueles filmes com o deus ex-machina mais preguiçoso que há, na minha opinião, o “foi tudo apenas um sonho” – até histórias que surgiram primeiro em sonhos e foram então transplantadas para a película. Havia chegado a hora de mais um filme sobre sonhos, mas desta vez sobre com quem se sonha: um filme tão original e intrigante quanto “O Homem dos Sonhos”.

Paul Matthews (Nicolas Cage) é um professor universitário de biologia que leva uma vida comum ao lado da mulher, Janet (Julianne Nicholson), e das duas filhas adolescentes. Tudo muda quando se descobre que pessoas aleatórias estão sonhando com ele. Nos sonhos, Paul é passivo, simplesmente surge e some sem fazer nada significativo. No início, dando entrevistas e sendo reconhecido, Paul gosta de ser “a pessoa mais interessante do mundo” – como falam para ele numa agência de publicidade – e vê a oportunidade perfeita para conseguir um editor para o livro que pretende escrever sobre formigas… até que os sonhos se tornam, literalmente, pesadelos.

Quando o teor dos sonhos muda e Paul começa a agir ativamente, atacando quem sonha, suas classes se esvaziam e os amigos se afastam. Para acalmar os alunos, uma especialista em terapia cognitivo-comportamental é chamada. Este tipo de terapia usa uma exposição gradual ao ser temido para que o medo vá embora. O medo de Paul, como geralmente acontece nos pesadelos, é irracional, mas quem teve pesadelos com Paul não quer vê-lo nem pintado de ouro. De celebridade mundial, nosso protagonista se torna persona non grata.

Paul tem opiniões fortes acerca da reação dos alunos aos agora pesadelos. Ele diz que, para esta nova geração, “tudo é trauma”. Quando lhe dizem para ficar uns dias sem dar aulas, reclama que “estão deixando os alunos mandarem” na universidade. Depois de tempos difíceis e pandêmicos, estamos saturados de ouvir comentários pra lá de ranzinzas como estes. Não é à toa que a fama de Paul se mantenha – e isso pode ser explorado, dizem os marketeiros – entre a extrema-direita… e na França.

Fica bem nítido que “O Homem dos Sonhos” é um comentário sobre a fama repentina e a cultura do cancelamento. Paul se torna uma celebridade literalmente da noite para o dia graças aos sonhos, e por causa dos pesadelos é cancelado. Sua fama é construída e destruída sem que ele nada faça. O cancelamento, entretanto, no mundo real e principalmente no virtual, acontece em geral por causa de alguma coisa que a personalidade fez e que não está alinhado aos valores da sociedade como um todo ou do fandom – grupo de fãs – desta personalidade.

Glauber Rocha certa vez afirmou que os sonhos eram o único direito que não se podia proibir. Claro que ele afirmou isso num contexto específico, da ditadura civil-militar iniciada em 1964, mas tinha razão quanto à natureza onírica ainda indomada. O sonho é um dos últimos recantos intocados pela publicidade invasiva. Já vemos produtos sendo ofertados para nós após uma simples busca no Google, graças às estratégias de remarketing, mas ainda temos sonhos sem anúncios – por enquanto. A partir do caso de Paul, é desenvolvido no filme um sensor para controlar sonhos, que logo tem seu uso cooptado pela publicidade.

O nome de Ari Aster pode ser considerado por muitas pessoas como uma marca de alta qualidade do filme a ser visto. Pois bem. “O Homem dos Sonhos” é produzido por Aster, que indicou Nicolas Cage para o papel principal, neste que é o centésimo filme na carreira do ator. O diretor e roteirista norueguês Kristoffer Borgli não escreveu o filme com nenhum ator específico em mente, mas Cage realmente se empolgou quando passou os olhos pelo roteiro:

Senti que tinha experiência de vida para interpretar esse personagem, em termos de ser alguém que está sob os olhos do público e que teve uma ascensão e queda, da mesma maneira que as pessoas me veem. As pessoas pensam que sabem muitas coisas sobre mim, e o papel foi uma grande oportunidade para onde levar essas memórias, experiências e sentimentos.”

É impossível classificar “O Homem dos Sonhos” em apenas um gênero cinematográfico. Tem momentos de comédia, drama, e inclusive de terror – quem é que, vivendo num mundo mediado pelo virtual, nunca teve medo de ser cancelado? Acima de tudo, é uma sátira inteligente dos nossos tempos e das novas nuances que a fama tomou com o advento da internet e dos virais.

O Homem dos Sonhos

O Homem dos Sonhos
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