Durante três anos, frequentei o Centro Universitário Claretiano. Quando finalmente a curiosidade me venceu e me perguntei o que significa ser Claretiano, fui apresentada à obra devocional do padre Antônio María Claret, missionário espanhol fundador da Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria. Sabendo pouco mais sobre ele do que seu nome, assisti à sua cinebiografia, O Santo de Todos: A Vida e Missão de Santo Antônio María Claret, que provou ser muito mais que um filme religioso: é uma cinebiografia sensível e muito bem feita.
Antônio María Claret y Clará (interpretado por Antonio Reyes) era filho de um empresário do ramo têxtil. Obcecado desde a infância pela ameaçadora danação eterna, decidiu a priori, na vida adulta, que se salvaria dedicando-se exclusivamente ao trabalho. Assim, focado no mundo dos tecidos, ignorava tudo ao seu redor, inclusive o sofrimento alheio. Mas um chamado o fez mudar, e o transformou em sacerdote.

Quando estava formando sua ordem de missionários, Claret foi mandado para Cuba como arcebispo. Lá fez inimigos devido ao ato revolucionário de tratar escravos como gente. De volta à Espanha, se tornou confessor oficial da rainha Isabel II (interpretada por Isabel Redondo) e mais uma vez se viu às voltas com as intrigas do reino.
Toda a história de Claret é contada em flashback pelo jornalista Don Azorín (interpretado por Carlos Cañas), que, vivendo na Espanha à beira do Franquismo, decide escrever um artigo sobre Claret, ainda uma figura bastante controversa e sobre a qual eram divulgadas informações desencontradas, mesmo mais de 60 anos após sua morte. Como Claret, Azorín foi uma figura real: nascido José Martínez Ruiz, adotou o pseudônimo Azorín para assinar sua vasta obra, que incluiu ensaios, novelas, artigos em jornais e peças de teatro.
Ambas as sequências da vida de Claret – em Cuba e na Espanha – são feitas com esmero, bem fotografadas e instigantes do ponto de vista narrativo. A sequência cubana tem como principal trunfo seu lado humanista, com a adição da figura de um ex-escravo, Lucas (interpretado por Joseph Ewonde), que se junta ao arcebispo, tornando-se verdadeiramente um amigo – algo que Claret necessitava muito naquela situação. Uma curiosidade: o título em inglês do filme é “Slaves and Kings” (Escravos e Reis), em alusão a esses dois episódios da vida de Claret.

Para acelerar a narrativa, são feitas algumas montagens mostrando episódios secundários da vida de Claret, como o seminário e ele arregimentando seus primeiros fiéis. Nesse momento, assim como bem no final, vem junto uma música instrumental edificante, o que é bastante comum na cinebiografia. Assim, podemos dizer que o filme não foge das fórmulas cinematográficas de seu gênero, mas sim as domina.
A maneira como Claret é construído é excelente: ao contrário de outras cinebiografias de figuras religiosas, O Santo de Todos: A Vida e Missão de Santo Antônio María Claret não busca mostrar o biografado como ser espiritualmente elevado desde sempre – o diretor e roteirista escolhe seguir aqui uma frase do Papa Francisco que declara que “não existe santo sem passado nem pecador sem futuro”. Claret tem sua fase mundana – ele é tão obcecado com o trabalho que ignora diversas vezes uma mulher pedindo esmola na porta da fábrica – e, embora não sejam apresentadas tentações em seu caminho, fica claro que ele teve que enfrentar questões de cunho pessoal, com sua fé chocando contra o que parecia o ideal a ser feito em determinado momento, em especial no que diz respeito à sua ligação com a rainha.
O diretor e roteirista Pablo Moreno vem se especializando em contar histórias de pessoas reais que nadaram contra a corrente – tanto é que sua produtora foi batizada de “Contracorriente Producciones”. Pablo conta que este foi o projeto mais difícil no qual já se envolveu, devido à quantidade de facetas diferentes de Claret que existem para ser exploradas. Uma das características favoritas de Claret, para Pablo, é sua força para realizar mudanças, quase como um super-herói, mas sendo um homem de carne e osso.

Em tempos tão sombrios, em que a influência da igreja na política vem sendo sentida cada vez mais e com consequências tão nefastas quanto a perda de direitos, a figura do padre Claret é fundamental. Ele tenta se manter sempre longe das questões políticas – dizendo que “o altar já está perto demais do trono” – e se envolver apenas com questões humanistas, como o tratamento igualitário a todas as pessoas. Infelizmente, só isso, que deveria ser regra básica de convivência em sociedade, já é o suficiente para atrair inimigos para o padre Claret. Não demora e ele está sendo chamado de “subversivo” e sendo atacado, inclusive fisicamente, por seus atos benevolentes.
Num país que precisa desesperadamente de menos pastores políticos e de mais religiosos comprometidos com o próximo, tal qual o padre Júlio Lancelotti, Antônio María Claret é uma inspiração providencial e necessária. Sua cinebiografia não é um filme feito exclusivamente para Claretianos ou pessoas ligadas aos Claretianos como eu, muito menos para servir de veículo de doutrinação. É cinema de qualidade que, por acaso, trata da vida de um santo.








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