O Sobrevivente é uma adaptação mais incisiva e em ritmo de fuga do sci-fi de Stephen King

Quando foi anunciado que Edgar Wright iria comandar “O Sobrevivente”, nova adaptação de “O Concorrente”, a notícia deixou muitos animados — especialmente os fãs de sua linguagem cinematográfica cheia de maneirismos e trilhas sonoras afiadíssimas, usadas para ilustrar momentos-chave da narrativa. É um estilo que Martin Scorsese e Quentin Tarantino transformaram em marca registrada e…


O Sobrevivente

Quando foi anunciado que Edgar Wright iria comandar “O Sobrevivente”, nova adaptação de “O Concorrente”, a notícia deixou muitos animados — especialmente os fãs de sua linguagem cinematográfica cheia de maneirismos e trilhas sonoras afiadíssimas, usadas para ilustrar momentos-chave da narrativa. É um estilo que Martin Scorsese e Quentin Tarantino transformaram em marca registrada e que Wright segue com desenvoltura. Esta nova transposição da obra de Stephen King para a telona não apenas carrega o estilo do cineasta, como também projeta um reflexo distorcido — e assustadoramente plausível — do mundo em que viveríamos em 2025, como toda boa ficção científica deveria fazer.

Em “O Sobrevivente”, acompanhamos um retrato brutal dos Estados Unidos em um futuro distópico, um país à beira do colapso econômico e tomado por uma onda crescente de violência. Nesse ambiente caótico, onde a esperança se tornou um artigo raro, Ben Richards (Glen Powell) vê apenas uma saída para tentar salvar sua família: arriscar a própria vida no sanguinário programa de TV The Running Man.

O reality show transforma a sobrevivência em espetáculo. Nele, candidatos são caçados por assassinos profissionais durante 30 dias. A promessa é simples — e cruel: se conseguir permanecer vivo até o fim, o participante recebe uma quantia em dinheiro capaz de mudar completamente seu destino. Para Ben, isso representa a chance de tratar a filha enferma e tirar sua família da miséria.

Esse ponto de partida leva Wright — que também assina o roteiro ao lado de Michael Bacall (“Scott Pilgrim Contra o Mundo”, “Projeto X”) — a mergulhar em temas como autoritarismo, manipulação midiática e exploração humana em nome do entretenimento, construindo uma crítica direta a uma sociedade que se acostuma com a violência enquanto ignora o sofrimento real das pessoas. São questões que, embora façam parte de um universo fictício, ecoam preocupações políticas e sociais inquietantemente atuais. Esse olhar mais incisivo, mais afiado do que o da versão de 1987 estrelada por Arnold Schwarzenegger, contribui para tornar a nova adaptação mais interessante.

O design de produção é outro trunfo. O futuro é concebido de forma retrô, como um 2025 imaginado nos anos 1980 (coerente com o romance original de Stephen King, publicado em 1982), conferindo um charme particular à obra. Soma-se a isso a trilha sonora de curadoria impecável — mais uma marca registrada de Wright. A direção é esperta e ágil, remetendo em diversos momentos ao irresistível “Em Ritmo de Fuga”, que consolidou o cineasta como um dos realizadores mais festejados da atualidade. E, como sugere o título original, as provas do jogo giram em torno da corrida. Mesmo quando, em momentos pontuais, o filme parece seguir a cartilha básica dos filmes de ação, Wright logo retoma o controle e apresenta alguma solução visual ou narrativa engenhosa.

Glen Powell, a bola da vez em Hollywood, foi escalado para assumir o papel que pertenceu a Schwarzenegger. Assim como as adaptações seguem caminhos distintos (sendo esta mais fiel à obra literária), o tratamento dado ao protagonista também difere. Powell é, sem dúvida, um ator mais versátil do que Schwarza nos anos 80. Ainda que o personagem pareça genérico a princípio, ele vai revelando nuances que o ator explora com habilidade. Josh Brolin entrega um vilão eficaz como Dan Killian, mas quem realmente rouba a cena é Colman Domingo, brilhante como o apresentador do programa.

“O Sobrevivente” inevitavelmente sofrerá comparações com o filme de 1987, mesmo propondo algo diferente. Há elementos da versão original que ainda se destacam — como a identidade dos inimigos —, mas esta nova adaptação brilha por ser mais fiel ao livro e por tratar a crítica social com mais seriedade, sem abandonar o sarcasmo característico. Não é o melhor trabalho de Wright, ficando abaixo de “Em Ritmo de Fuga” e “A Noite Passada em Soho”, mas ainda assim oferece um sci-fi sólido, capaz de estimular a reflexão entre uma cena de ação e outra.

O Sobrevivente

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Nota: 7/10 – Ótimo
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