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“Power Rangers” propõe novo olhar sobre a franquia, embora não escape do pragmatismo

Já era mesmo esperado que os Power Rangers fossem abraçados pela renitente onda de filmes de super-heróis no cinemão americano. Coqueluche nos anos 1990, Mighty Morphin Power Rangers era uma série sentai japonesa (aquelas que giram e torno de uma equipe multicolorida cujo líder sempre traja vermelho) que chegou por aqui de uma maneira distinta de predecessoras como Changeman e Flashman.

Para conquistar o mercado norte americano, onde tokusatsus nunca chegaram a ser febre, a Saban Entertainment adquiriu os direitos da japonesa Toei Company e criou um formato híbrido. Consistia em editar cenas tiradas de Kyōryū Sentai Zyuranger – quando os heróis estavam transformados e enfrentando monstros – com outras produzidas nos EUA, em que se viam os protagonistas à paisana. O sucesso foi certeiro e ganhou até dois longas metragens para o cinema na época (com um orçamento bem mais vultoso do que da série de TV).

Depois de muita especulação sobre a volta da “hora de morfar” às telonas, chega aos cinemas neste final de semana “Power Rangers” (Idem, EUA/2017). O mote não difere do original. Cinco jovens adquirem super poderes graças a uma força ancestral que os seleciona, e precisam usá-los contra uma ameaça alienígena capaz de dominar ou mesmo destruir a Terra. Para isso contarão com a ajuda de Zordon (Byan Cranston em um misto de Jor El de “Superman: O Filme” com Morpheus de “Matrix”) e do robô Alpha 5 que, além de treiná-los, fornecerão todo um aparato para combater o mal que se aproxima.

Como o trailer já indicava, o filme segue em uma direção mais séria e menos bufona do que a matriz, embora o humor se faça presente. Em alguns momentos da parte inicial chega a um tom quase próximo do fan film de Joseph Kahn. O roteirista John Gatis e o diretor Dean Israelite procuraram alinhavar a saga dos Rangers como um drama adolescente, remetendo a clássicos do cinema teen como “Clube dos Cinco” e “Conta Comigo”.

Inclusive as personalidades dos novos Rangers são moldadas em cima dos arquétipos trabalhados naqueles filmes. Jason, o Ranger vermelho (Dacre Montgomery), é o herói do futebol americano; Billy, o Ranger azul (RJ Cyler), é o nerd; Kimberly, a Ranger rosa (Naomi Scott), é a garota popular; Trini, a Ranger amarela (Becky G), a menina rebelde, e Zack, o Ranger preto (Ludi Lin), o rapaz audacioso.

Também são perceptíveis contornos de exemplares mais recentes como “Poder Sem Limites” e até “Projeto Almanaque”, filme anterior de Israelite. O carisma do quinteto e a química entre eles são um ponto positivo. Se não funcionasse, alguns deslizes do script causariam danos maiores ao resultado final.

A estrutura narrativa se delineia pela via pavimentada e sacramentada por Sam Raimi em “Homem-Aranha”: jovem ganha poderes, descobre que grandes poderes trazem grandes responsabilidades e salva o dia. A opção de valorizar o desenvolvimento dos personagens – mesmo com alguns pontos não tão bem resolvidos – em detrimento da ação até surpreende em uma produção de que se espera o contrário. Todavia, a parte super-heroica propriamente dita saiu notadamente prejudicada, como se pode constatar no terço final.

O clímax desperdiça a chance de fazer uma belíssima homenagem às séries sentai e acaba como um genérico de tudo o que tem sido visto em blockbusters recentes. A batalha contra o exército de Rita Repulsa (nem tão repulsiva assim nessa esbelta versão encarnada por Elizabeth Banks) não se difere muito dos desfechos de filmes da Marvel, e a luta do Megazord contra o monstro Goldar mais parece uma versão empalidecida dos embates de robôs gigantes e kaijus de “Círculo de Fogo”, esse sim um soberbo tributo aos tokusatsus.

Não fugindo ao esquematismo das atuais adaptações/reboots/remakes, “Power Rangers” se vale da nostalgia e do fan service para unir os fãs antigos às novas audiências no mesmo diálogo, ao mesmo tempo em que lança mão de soluções para propor um novo olhar sobre os heróis da Saban, a começar pela armadura com design de aspecto alienígena (mais coerente do que colant), e o lado humano sendo colocado em primeiro plano. Embora seja refém de fórmulas inevitáveis do atual cinema pipoca, o longa descerra possibilidades de reativar uma franquia que se encontrava combalida.

Filme: “Power Rangers” (Idem)
Direção: Dean Israelite
Elenco: Dacre Montgomery, RJ Cyler, Naomi Scott, Elizabeth Banks, Bryan Craston
Gênero: Aventura/Ficção científica
País: EUA
Ano de produção: 2017
Distribuidora: Paris Filmes
Duração: 2h 04min
Classificação: 10 anos

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