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Prejudicado pelo roteiro, “360” se salva pela ótima direção de Meirelles

Fernando Meirelles é o melhor diretor do Brasil. Sua carpintaria e apuro técnico ainda são afiadíssimos com a humanidade que seus filmes retratam. Em sua ascendente carreira internacional, podemos comprovar isso em pelo menos uma obra-prima O Jardineiro Fiel, que junto com outro primor (Cidade de Deus) foi um excelente cartão de visitas para que essa propriedade prevaleça até hoje em sua obra.  360, seu novo filme, vai muito por essa vertente, porém revela que o “poder” de Meirelles não resiste à inconsistência da palavra.

Adaptação da peça A Ronda, o roteiro de Peter Morgan (Frost/Nixontenta falar sobre como a globalização espacial influi sobre as relações íntimas dos seres. Um empresário inglês de passagem por Bratislava, Michael (Jude Law), contrata os serviços de uma garota, e dali em diante o roteiro vai entrelaçando as personagens em um vórtice aleatório de acontecimentos e acasos. Em Londres, a mulher de Michael, Rose (Rachel Weisz, sempre muito consistente), também se divide numa relação extraconjugal que gostaria de romper, no caso com um fotógrafo brasileiro (Juliano Cazarré), que por sua vez está sendo deixado pela namorada Laura (Maria Flor). Anthony Hopkins entra como o companheiro de vôo de Laura, partindo de volta ao Brasil. Ele há anos está à procura de uma filha. Além de um ex-presidiário (Ben Foster) que também cruza o caminho de Laura, um chefão russo (Mark Ivanir) e seu motorista Sergei (Vladimir Vdovichenkov), que fazem a ligação com a prostituta eslovaca, e a mulher de Sergei, Valentina (Dinara Drukarova), que trabalha em Paris como assistente de um dentista muçulmano (Jamel Debbouze), apaixonado por ela, mas que por seus princípios morais e religiosos não se declara em virtude da mulher ser casada.

Infestado por várias críticas ruins, 360 é parcialmente brilhante. No tocante ao trabalho de Meirelles, com sua precisão fílmica e esmero no trabalho de atores, tudo continua ótimo. Há planos lindíssimos e, mesmo ancorados por um roteiro (por vezes) superficial, os personagens são orgânicos. O problema do filme está no roteiro, esquemático e inverossímil, tornando a premissa do acaso um tanto vaga e superficial. Morgan, que tem um histórico de bons trabalhos (sua desconstrução humana da figura de rainha Elisabeth, em A Rainha, é memorável), cai aqui na fragilidade de uma intenção. Sua ambição em fragmentar as improbabilidades da vida, pelo acaso acaba prejudicada pela falta de justificativa crível de alguns de seus principais arcos dramáticos. Quanto a isso, a direção pouco pode fazer, mas Meirelles sabe impor sua veia autoral e o resultado comove. Não é um filme perfeito. É um filme de desníveis como são as diversas histórias que conhecemos. Ouro de tolo? Pode ser. Mas como Meirelles é um artesão da imagem, todo o pecado (dos outros) é perdoado.

[xrr rating=4/5]

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