“Se eu tivesse pernas, te chutaria” revela atuação impecável de Rose Byrne ao trazer importantes reflexões sobre o lado sombrio da maternidade

Desde o primeiro instante, a fonte, típica de filme de terror, em tom vermelho-sangue nos créditos, a trilha sonora e o super close inquieto no rosto de nossa protagonista nos anunciam que estamos embarcando em uma trajetória de tensão e estranhamento. Tudo isso, em conjunto com o selo de qualidade da produtora de cinema A24,…


If I Had Legs Id Kick You

Desde o primeiro instante, a fonte, típica de filme de terror, em tom vermelho-sangue nos créditos, a trilha sonora e o super close inquieto no rosto de nossa protagonista nos anunciam que estamos embarcando em uma trajetória de tensão e estranhamento. Tudo isso, em conjunto com o selo de qualidade da produtora de cinema A24, indicava que eu poderia contar com um clima sombrio e levemente fantasioso permeado por reflexões realistas e contundentes sobre nossa sociedade.

Rose Byrne interpreta Linda, uma mãe que precisa dar conta de cuidar de sua filha doente e trabalhar como psicóloga, ao mesmo tempo em que um enorme e misterioso buraco no teto de seu quarto a obriga a ir viver em um hotel.

A escolha da profissão de Linda reitera seu papel de cuidadora, acentuando uma demanda externa constante por disponibilidade e inteligência emocional e a expectativa de que ela sempre vá saber o que dizer ou fazer. Os únicos momentos em que Linda teria para relaxar seriam na sua sessão de terapia e durante a noite, enquanto sua filha dorme. Porém, mesmo estes momentos passam por perturbações e estresses que só reafirmam a impossibilidade de nossa protagonista em descansar ou se renovar e aceleram ainda mais o seu processo de degradação física e mental.

Apesar da doença da filha nunca ser revelada, podemos perceber a gravidade da situação, devido à preocupação constante da médica/terapeuta encarregada de acompanhar seu tratamento, do estado desequilibrado de nossa protagonista e do fato da menina precisar de um tubo de alimentação como manutenção noturna para sua ingestão. 

Todos estes fatores, somados à ausência de seu marido, que só aparece como uma voz distante ao telefone para criticar, cobrar ou questionar os atos de Linda, criam uma ambiência de tormento e isolamento crescentes.

Esta é uma típica narrativa de escalonada de acontecimentos. Destas em que o espectador vai sendo sugado para o mundo interno/mental da personagem, cada vez mais caótico, desesperado e sem saída. Dessas, também, em que elementos físicos e concretos servem de metáfora para expressar algo subjetivo ou da ordem do invisível. No caso, o tal do buraco no teto pode ser associado tanto ao tubo de alimentação da filha, que assombra nossa protagonista, como uma presença que lhe faz lembrar constantemente de sua culpa e inaptidão em curá-la, como também pode servir como símbolo da sua desintegração mental progressiva.

Eu, em geral, não sou tão adepta deste tipo de história. Acabo ficando angustiada demais ou deixo de acreditar na incapacidade da personagem em se tirar da confusão. Mas aqui isto não ocorreu. Talvez pelo imenso talento e carisma de Rose Byrne, mas certamente, também, por solidarizar com as sensações de sobrecarga, desamparo e inaptidão desta mulher que se vê obrigada a assumir diversos papéis, sempre sendo criticada, sem possibilidade de descanso e com pouquíssimo apoio. 

O filme abre um leque de demonstrações em torno do sofrimento materno: depressão pós-parto, ausência da figura paterna, exigências desiguais em cima das mães, privação de sono, etc. 

Há várias histórias recentes que abordam a temática do lado sombrio da maternidade. Um deles, o documentário As Bruxas, fala sobre níveis graves de depressão pós-parto que levam à paranóia, perda de consciência e possíveis atos de violência contra os bebês. Canina, de Marielle Heller, mostra uma mãe que, para voltar a se conectar consigo mesma, se dá a liberdade de penetrar no seu lado mais selvagem e primal. Esse tipo de história vem encontrando espaço, à medida que nos abrimos para narrativas mais honestas e menos idealizadoras em torno do tema. Seja com filmes mais realistas, como Tully, de 2018, ou aqueles que flertam com gêneros de terror ou fantasia, como o maravilhoso longa australiano O Babadook, de 2014.

A diretora, Mary Bronstein, disse ao público, após a sessão no New York Film Festival, que parte da inspiração para o filme veio de uma experiência real pela qual passou quando sua filha pequena esteve doente e ela teve que viver em um quarto de hotel com ela por 7 meses. Desde então, levou 7 anos desenvolvendo o roteiro e indo em busca de pessoas interessadas em produzi-lo para, no final, filmá-lo em apenas 27 dias.

Mary diz que, nesse período, não chegou a fazer exatamente as mesmas coisas que Linda faz no filme, mas passou horas noite adentro se perdendo em guloseimas, bebidas baratas e um intenso questionamento sobre sua identidade. Sentia que estava desaparecendo aos poucos. Ao falar desta sensação, a diretora chamou de Terror Existencial, um nome que achei maravilhoso para tratar de um certo gênero presente em filmes como O Bebê de Rosemary, Melancolia ou Hereditário.

Para além de um roteiro muito inteligente e de se tratar de um assunto que acredito que deva ser mais debatido, preciso ressaltar ainda duas características fundamentais para o sucesso do filme: a atuação de Rose Byrne e a coerência das escolhas estéticas da direção e da cinematografia com os efeitos que desejavam provocar no espectador.

Rose é realmente impressionante. Somos capazes de estar ao lado dela, entendendo sua dor, solidão e agonia ao mesmo tempo em que somos críticos em relação a algumas de suas escolhas e ao seu lado egoísta e grosseiro. Este é um equilíbrio difícil de se criar no cinema. Para alcançá-lo, uma das medidas tomadas foi a decisão, bastante radical, de nunca mostrar a menininha. Mostrar a filha nos deixaria muito mais divididos e potencialmente mais críticos e julgadores em relação à Linda. Além disso, a câmera fechada em Byrne enfatiza o clima de claustrofobia e isolamento e nos coloca diretamente em contato com o seu modo de ver e sentir o mundo, provisoriamente incapaz de enxergar a filha como um ser adorável ou como fonte de amor. Há momentos, até, em que a voz da menina, com seus desejos, carências e caprichos, a torna insuportável. Não vê-la e sabendo-a vítima de uma doença misteriosa também nos permite imaginá-la como um pequeno monstrinho. 

Todo esse jogo entre mostrar, sugerir e esconder é feito com maestria pela diretora Mary Bronstein para nos posicionar em uma condição limítrofe, onde nos reconhecemos em cenários de perda de controle e de alienação diante do mundo, a ponto de não conseguirmos distinguir a hierarquia entre grandes ou pequenos problemas. Nestas horas, qualquer detalhe, por mais minucioso que seja, pode nos fazer cair ou enlouquecer. E no final das contas, um filme como este, que nos mostra consequências reais de situações concretas de depressão, ansiedade e extrema dificuldade em lidar com o mundo, nos quais nós mesmos somos a fonte da maldade e do horror que nos aflige, é muito mais assustador e aterrorizante do que um sobre fantasmas e elementos externos…

Em resumo, é bom, importante e eu recomendo. Dou 4 estrelas pra ele 🙂 ⭐️⭐️⭐️⭐️

Este filme faz parte da seleção do Festival do Rio 2025.