Teatro filmado. Para alguns, a gênese do cinema, uma bem-vinda mistura na linguagem cinematográfica estabelecida há mais de um século. Para outros, defeito a ser evitado a qualquer custo, porque as artes não deveriam se misturar. Nós, tão acostumados estamos com a linguagem do cinema, nos sentimos até um pouco desconfortáveis quando vemos algo que parece teatro filmado. É esse o desconforto inicial de Aldeotas que, uma vez transposto, nos convida a viver e reviver juventudes, além de nos levar algumas reflexões.
Levi (Gero Camilo) e Elias (Marat Descartes) são dois amigos da cidade de Cotia das Fuças. De modo cronológico, são contadas aventuras dos dois, interpretados, sem importar a idade, pelos dois atores que são os únicos em cena. Passado o estranhamento inicial de ver dois marmanjos falando como crianças, nos acostumamos com a construção da narrativa, quase toda passada nos cômodos e lugares de um prédio abandonado.

Na adolescência, em meio a encontros, tertúlias e relacionamentos breves, Levi e Elias, os amigos inseparáveis, montam um jornalzinho na escola, cujas cópias são feitas no mimeógrafo da dupla, aparelho enviado da cidade grande pela prima de Levi. É um jornal de poemas, com Levi servindo de poeta e Elias revisando os escritos. É através deste jornalzinho que eles encontram suas vozes, Levi principalmente. Aqui, um ponto de identificação pessoal: foi também num jornalzinho da escola que escrevi minha primeira crítica de cinema.
Quando está lendo um poema de amor que Levi, aos 12 anos, escreveu para a namoradinha, Elias diz que “é necessário um tempo maior de silêncio para fazer uma boa crítica”. Tomei então como conselho esta máxima do personagem. Em tempos tão corridos, em que as estreias – em especial as do streaming – ficam velhas depois de alguns dias e em geral não há muita reflexão dos influencers que fazem as chamadas críticas nas redes sociais, o papel da crítica sempre é colocado em debate. Não basta ficar a par das últimas estreias: um bom crítico precisa conhecer os clássicos, coisa que nem todo novato na área sabe ou está disposto a fazer.
Tomada a distância do tempo, Aldeotas só cresce. Nos dias que se seguiram à sessão do filme, me peguei pensando nele com carinho, ainda contaminada com a beleza de seus momentos mais poéticos. Vi-me no filme, como moradora de cidade pequena, como crítica iniciante que fui na adolescência, como pessoa que já planejou fugir da pequenez de sua terra natal após a formatura.

Aldeotas surgiu, para a surpresa de ninguém, de uma peça de teatro que ficou em cartaz por mais de dez anos, colecionando público, elogios e premiações. Direção e roteiro do filme foram assinados pelo protagonista, Gero Camilo. Com o amigo Marat Descartes, Camilo havia, há alguns anos, fundado a Fuleragem Filmes, companhia que gerou dois curtas e um média-metragem. Aldeotas chega para inaugurar uma nova fase na empresa, espera a dupla
Quem ousa fazer um filme com linguagem e técnicas teatrais está sempre ariscando muito. Quando essa estratégia dá errado, em geral dá muito errado. Mas quando dá certo… que delícia ver um filme-peça! E Aldeotas se encaixa nesse último caso. Filme-peça de extrema grandeza e delicadeza, convida-nos a uma volta à juventude, aos desafios, aos sonhos e aos anseios que, de um jeito ou de outro, um dia todos nós conhecemos.









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