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Uma carta aberta para um dos melhores filmes de 2015: “Amy”

Já passa da meia noite de uma quarta-feira de clima quente no Rio de Janeiro. Acabei de assistir ao documentário sobre sua vida, numa sala quase cheia, daqueles multiplex que se misturam aos charmosos cinemas de rua de um bairro cool chamado Botafogo.

O filme definitivamente não me sai da cabeça. O diretor que escolheram é o britânico Asif Kapadia, o mesmo que aprofundou com destreza reveladora e emocionada, o que havia por trás da mitologia de Ayrton Senna, no obrigatório Senna. Ele tem uma capacidade de se valer do verbo documentar em sua essência mais espontânea: deixa os fatos moldarem uma espécie de dramaturgia da vida (com maravilhosa trilha intimista e melancólica, do brasileiro Antônio Pinto).

E a sua vida nada mais foi que um arco dramático permeado pelo fatalismo. Grande parte dela é mostrada pelas lentes reais de filmagens caseiras de seu amigo Nick Shymansky. É através delas que vemos você dizendo, lá no iniciozinho da carreira “Eu não quero ser famosa. Tenho certeza de que não aguentaria a pressão”, como se fosse um prenúncio de seu destino.

É desse passado filmado (ou não) que assistimos o quanto sua relação com Blake Fielder foi corrosiva e definitiva para o desfecho de sua biografia em vida, e, a mais dramática e desoladora de todas as revelações, quando sua amiga de infância Juliette Ashby revela seu cansaço com a exploração de seu sucesso, especialmente pelo seu pai: “Em uma de nossas muitas conversas ela me disse que estava perdida e que não poderia sair em turnê pela América do Norte. Amy não queria fazer aquilo. Eu conversei com Mitch, mas ele não aceitou e me disse que ela iria de qualquer forma. Amy não queria mais fazer shows”.

É Amy, você no fundo foi engendrada pelo sucesso que conquistou e, mais ainda, sucumbiu às carências emocionais que tanto fizeram de sua estima o fel que a consumia. Sua relaçao com o oportunismo paterno (e a desastrada base familiar que tinha) dizia muito sobre sua própria personalidade emocional e auto destrutiva. Isso era expresso mais pela poesia da dor que tanto expunha em suas belas letras, do que em sua própria lucidez em vida. Por isso sua arte foi tão legítima e verdadeira.

Era você se defendendo da própria vida em canções que relativizavam o amor que não tinha. Amy, o filme sobre você é exatamente como víamos sua curta trajetória por essa dimensão: intensa e lacônica. A beleza de certa forma está embutida na dor. Na verdade, não é nem a sua vida que daria realmente um filme, mas sim o cinema que jamais compreenderia tão ricamente as complexidades de seu ser, não fosse tudo tão verídico e perturbador.

O clima entre os espectadores, na saída da sessão, era de consternação. E muitos olhos inchados. Até hoje ainda choram por você. Mesmo que lá no fundo, essas lágrimas rolem por assimilarmos que seu talento era valioso, mas suas fragilidades íntimas eram mais universais do que podíamos supor. Sua vida não me sairá da cabeça. E, a partir de hoje, suas músicas ganharam um novo sentido para mim.

Saudades, Amy.

Ass: um fã brasileiro, que assistiu arrepiado seu show carioca, o penúltimo antes do adeus.

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