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Uma Noite de Purgação

“Uma Noite de Crime” (The Purge no original), novo filme de James DeMonaco, faz uso de um mecanismo próximo aos filmes de George Romero e outros mestres do terror/suspense. Se utiliza dos códigos e da popularidade do gênero para falar de questões sociais e culturais da atualidade, fazendo uma crítica a algum aspecto da sociedade. O medo e a sobrevivência estão no cerne de muitos dos filmes de zumbi, e mesmo se tratando de outra temática, este não é diferente.

Uma questão ética e moral é colocada para os membros de uma família de classe alta chefiada pelo personagem de Ethan Hawke, no dia anual de purgação da violência. Uma nova fundação da república haveria institucionalizado uma data em que durante 12 horas seria possível e permitido cometer qualquer tipo de crime sem que os culpados fossem julgados ou presos. Uma espécie de catraca livre para matar, roubar, torturar.
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Desde o início do filme, a trilha sonora é repleta de notícias de jornal televisivo ou via rádio que colocam em questão dois aspectos:

1 – a discussão sobre o significado prático deste dia, seus prós e contras, juntamente com debates sobre o instinto animal violento do ser humano.
2 – os números de taxas de desemprego, de desenvolvimento do país que provam estatisticamente o sucesso desta nova determinação governamental para o crescimento da nação desde sua implementação.

Em todos os casos, a data é mencionada com naturalidade, sem nenhum resquício de estranheza ou indignação, e até mesmo sendo endossada pelos locutores.

Ao longo do filme, começamos a entender que esta realidade em ascensão se deu devido ao fato de que durante cada um destes “eventos”, massacres de pessoas mais pobres são realizados. Aqueles de boa renda têm dinheiro para se protegerem, se isolarem ou se armarem. Os mais pobres são alvos e vítimas dos ataques aleatórios de pessoas que querem sair às ruas com o intuito de purgar suas vontades assassinas. É realizado, então, um extermínio direcionado às camadas desprivilegiadas e desamparadas, sobretudo os moradores de rua, estes sim completamente expostos, diminuindo assim o número de pessoas que reforçaria as estatísticas de desemprego e desigualdade social, que em geral, são causas de outros problemas tais como roubos, tráficos de drogas, etc. Além desta explicação que vai se tornando explícita ao longo dos acontecimentos, há outra teoria, defendida pelo discurso dos personagens, de que através do uso controlado da violência extrema nesse dia, as pessoas sentiriam-se livres desse impulso ao longo do ano, como se as vítimas se sacrificassem pelo bem de todos que sobrevivem.
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A família que protagoniza o filme é um exemplo do setor de privilegiados. O Senhor Sandin (Ethan Hawke) é um bem sucedido vendedor de sistemas de segurança, se beneficiando diretamente da necessidade das pessoas de protegerem suas residências. Posto tudo isso, a situação do filme atinge seu ponto de virada no momento em que de fato se estabelece um conflito, quando o filho mais novo, ainda ingênuo ou simplesmente mais humano, se apieda de um jovem negro morador de rua que está gritando por socorro ao fugir de um grupo de pessoas, e deixa-o entrar, abrindo momentaneamente o sistema de segurança.

O medo do pai da família, quando se vê diante desta situação é colocado ainda mais em relevo quando o grupo de jovens ricos delinquentes toca a campainha para exigir a entrega do rapaz, por eles chamado de “porco sujo”. Anunciam que se não o entregarem vivo, vão trazer reforços e penetrar o sistema de segurança, colocando toda a família como alvo.
Começa então um embate moral entre entregar o homem e ser totalmente responsável por sua morte ou tentar buscar alguma outra alternativa, mesmo que ferindo a segurança da família.
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Como filme de terror, sabe muito bem utilizar determinados códigos, tais como o escuro, os sustos, a ameaça logo ao lado e os pequenos sinais de estranheza que mais tarde se mostrarão verdadeiros perigos ou armas. Existe sim um maniqueísmo que atinge a narrativa, com alguns elementos óbvios de bem e mal, mas que funcionam para o propósito da trama de gerar reflexão através de personagens arquétipos. Não há brecha para discussões filosóficas entre os personagens. Tudo que concluímos parte da junção de todos os elementos que nos são fornecidos. É um filme baseado sobretudo na ação como motor da história e não nos entretempos da família.

No fim das contas, é um bom filme de ação, capaz de gerar tensão ao espectador, além de uma importante reflexão.

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