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“A Vida Secreta de Walter Mitty” e o lugar de cada um no mundo

Quantas vezes nos pegamos parados, sonhando acordados, pensando em possibilidades, sonhando com nossos desejos mais íntimos enquanto o mundo continuava a passar a nossa volta? Quantas chances temos de realizar esses sonhos? Walter Mitty (Ben Stiller) é diretor de negativos da revista LIFE, recentemente adquirida e convertida apenas para formato digital. Ele recebe uma carta de um dos melhores fotógrafos do mundo, Sean O’Connell (Sean Penn), com quem vem trabalhando há 16 anos sem nunca ter conhecido pessoalmente e nela, alguns negativos incluindo um que ele recomenda ser usado para a última edição da revista, só que o mesmo não está junto da carta. O emprego de Mitty agora está em jogo e para piorar, seus devaneios com Cheryl (Kristen Wiig) só tem feito ele perder mais e mais o foco na empreitada.

O que poderia ser uma comédia romântica água com açúcar ganha nova embalagem e desempenho nas mãos de Stiller como diretor, que apesar do histórico não tão favorável, tirando “Trovão Tropical” que é muito bom, mostra total competência e denota um futuro mais sério a sua carreira. A história do filme é baseada amplamente na obra de James Thurber de mesmo nome, só que com um enredo bem diferente e já adaptada para o cinema previamente em 1947 com o nome de “O Homem de 8 Vidas”, mas o que se tem aqui não é um remake, a história, ainda que baseada no mesmo conto, é diferente, da mesma forma que o filme de 1947 não tem nada a ver com o conto.

DF-11070-Edit - Ben Stiller in THE SECRET LIFE OF WALTER MITTY.

A começar pela direção de arte e de fotografia do filme, mostrando preocupação com detalhes e paisagens, demonstrando que para colocar a ação em Nova Iorque, não se precisa recorrer aos marcos de sempre como a Estátua da Liberdade ou o Empire State e nem ficar mostrando táxis e todas aquelas mesmas imagens que vemos para nos referirmos a cidade. Neste aspecto, o filme é uma maravilha porque Walter, ao ter de sair de sua zona de conforto acaba descobrindo que há muito mais atrás destas muralhas de concreto e vidro, fora da sua sala de negativos sem janelas e distante de chefes autoritários e paixões não correspondidas. Poderia-se pensar que a sala de Walter é sua prisão, mas ali, em verdade, ele reina absoluto, mesmo sem conseguir ver o que acontece na parte de fora.

O roteiro é bem simples e a mensagem do filme é bem clara: busquem seu lugar no mundo, procurem seus sonhos e quem sabe, a realidade não acaba parecendo mais sonho do que os próprios sonhos ou devaneios. É interessante ver Stiller sair do seu gênero de comédia pura e criar uma obra que em diversos momentos chama o público para dentro de si e mostra que a vida de cada um, com todos seus problemas e todas agruras, pode ser muito bem apenas mais uma demonstração de que precisamos de desafios para nos sentirmos vivos. A partir do momento em que ficamos estagnados por 16 anos na mesma coisa, somos nada mais que uma folha quadrada cinza, sem vida, sem perspectiva, sem sonhos.

The-Secret-Life-of-Walter-Mitty-Trailer3

Walter é o sonhador, mas ao mesmo tempo ele é muito mais que isso e vemos esta faceta dele desde o começo do filme. Podemos falar que há uma transformação no personagem, mas também podemos dizer que o que vemos na tela é a libertação de um sentimento, de uma pessoa e de seus desejos. A história deixa isso bem claro a partir do momento que mostra que há diversas pessoas a volta dele com outros tipos de problemas e que mesmo assim não há a plena confiança em si, sejam os chefes desajeitados, seja o interesse romântico meio aérea, seja a irmã ou a mãe (Shirley MacLaine) de Walter.

Por mais vago que se queira parecer nesta resenha, a ideia no final das contas é que o filme é simplesmente bom por ser. É um daqueles filmes que pouco se pode pedir do espectador, sendo a mais importante, apenas se delicie com as imagens e com a luta pelos sonhos, dando algumas risadas aqui e ali, mas com certeza, tendo empatia com Walter. Não é material de premiações, mas com certeza irá marcar aqueles que o assistirem pelos simples fato que ele toca na alma de muitos dos espectadores, que sonham e querem algo mais sem correr atrás, apenas esperando sua chance. Talvez seja caso de começar a correr atrás do sonho e deixar que o acaso de lado. As vezes ele pode acontecer, ou as vezes a sua batalha já é o bastante.

O filme tem seus problemas, especialmente quando a veia de humor de Stiller quer saltar e ele começa a fazer a comédia no tom errado para o momento do filme com a intenção de cortar a tensão. O maior erro da direção e roteiro é esse, não deixar o drama e a beleza aflorarem sozinhas sem que haja algum momento de humor. Entretanto, essas bobagens passam em questão de segundos e são muito poucas para atrapalhar o filme e seu esplendor.

Extremamente recomendável para quem gosta de cinema feito de forma simples e bela, como a sétima arte sempre deveria ser.

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