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Literatura

A Amazônia urbana: o que a literatura de Manaus revela sobre o Brasil

Por Myriam Scotti*

Manaus raramente figura no imaginário nacional como uma cidade brasileira comum. Costuma ser vista como território engolido pela floresta ou como um ponto distante do restante do país. No entanto, quem lê a literatura produzida ali encontra algo menos extraordinário e mais perturbador: uma cidade atravessada pelos mesmos conflitos que definem o Brasil: desigualdade extrema, migração interna, trabalho precário e promessas de desenvolvimento que nunca se realizam plenamente. Longe de simbolizar apenas o exotismo, Manaus, com mais de dois milhões de habitantes, pode ser lida como uma síntese do país.

Em minha escrita, procuro mostrar como histórias aparentemente locais revelam impasses estruturais de alcance nacional. Nos contos de Sol abrasador prepara solo fértil (2025), a cidade aparece como organismo vivo que molda e é moldado por quem a habita. Personagens enfrentam o dilema entre partir e permanecer, como se a ideia de futuro estivesse sempre em suspenso. Essa sensação não é apenas social, mas afetiva e corporal: Manaus age de maneira distinta sobre cada um, dependendo da classe, da origem, do gênero. O mesmo espaço que oprime pode fertilizar. O calor que exaure pode preparar o solo para algo novo.

Essa escrita dialoga com a herança dos ciclos econômicos, da borracha à Zona Franca. O que emerge é a convivência entre modernização e abandono. Grandes projetos prometem progresso, enquanto a precariedade persiste. No romance Terra Úmida (2021), ao narrar a chegada de uma família de judeus marroquinos durante o primeiro ciclo da borracha, a floresta não é apenas cenário, mas presença que invade e transforma. A terra amazônica, úmida e excessiva, infiltra-se nos personagens, dissolvendo certezas e expondo a fragilidade das ideias de civilização.

As mulheres ocupam papel central nesse processo. Muitas vezes são elas que sustentam a continuidade da vida, mesmo quando invisibilizadas. A cidade age sobre seus corpos de modo particular, e é através delas que a narrativa se move — histórias locais que se aproximam de tantas outras espalhadas pelo país.

Escrever a partir da Amazônia implica confrontar a ideia de margem. O Norte é frequentemente percebido como periferia cultural, mas essa posição permite enxergar o Brasil por outro ângulo. O que costuma ser tratado como exceção — informalidade, desigualdade, frustração desenvolvimentista — revela-se regra. A experiência amazônica não é periférica, mas estrutural para compreender o país.

A literatura torna-se, assim, espaço de revisão e reinvenção. Narrar histórias de pessoas comuns, trabalhadores informais, migrantes, mulheres que sustentam famílias, é afirmar a presença de vidas silenciadas ou reduzidas a estereótipos. Manaus surge então como espelho incômodo do Brasil: futuro e ruína coexistem, progresso e precariedade se misturam. Não é cidade isolada, mas metrópole que concentra, de forma intensificada, as tensões nacionais. Ao olhar para ela, olhamos também para o Brasil.

*Myriam Scottinasceu em 1981, em Manaus (AM). É escritora, crítica literária e mestre em Literatura pela PUC-SP. Seu romance “Terra Úmida” foi vencedor do Prêmio Literário de Manaus 2020. Em 2021, seu romance juvenil “Quem chamarei de lar?” (editora Pantograf) foi aprovado no PNLD literário e escolhido pelo edital Biblioteca de São Paulo. Em 2023, lançou o livro de poemas “Receita para explodir bolos” (editora Patuá). Foi finalista do prêmio Pena de Ouro 2021 na categoria Conto. Em 2024, ficou em segundo lugar na categoria conto do prêmio Off Flip. Myriam é autora de  “Sol abrasador prepara solo fértil“(editora orlando, 2025, 136 págs.)

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