Entre dores e ausências, escritora baiana Renata Ettinger lança “Habitadores”

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Na poesia de Renata, a dor é protagonista. Ela nos habita e por nós é habitada. Nos atravessa, nos carrega junto com ela.
Trecho da orelha de Carla Guerson

“Habitadores é sobre aprender a lidar com as rachaduras da casa inescapável que somos todos nós. Alguma dor sempre há de existir. E o tempo é uma força viva que nunca para de atuar em nossas paredes.”
Trecho da apresentação de Thaís Campolina

“Habitadores”, novo livro de poesia da escritora e publicitária baiana Renata Ettinger mostra “os desafios de aprender a lidar com as rachaduras da casa inescapável que somos todos nós”. É assim que Thaís Campolina, autora e crítica literária descreve a obra na apresentação do livro. Publicado pela editora Patuá (124 p.), 

Saúde mental, rotina, perspectiva feminina, casa e habitat são alguns dos temas que permeiam os poemas de Renata. Com uma escrita rítmica e corajosa, a poeta faz o exercício de olhar com leveza para as dores que também nos habitam. “O primeiro nome desse livro foi ‘Habito Dores’. Nesse momento, comecei a investigar o que tinha escrito e por onde poderia caminhar. Com o tempo, o título do livro migrou para a 3ª pessoa do singular: ‘Habita Dores’ ou ‘Habitadores’. E quando o livro foi ganhando forma, entendemos que seria algo como ‘Habitadores'”, conta. 

Na orelha do livro, a escritora e idealizadora do Coletivo Escreviventes, Carla Guerson, destaca o protagonismo da dor e da ausência no trabalho de Renata: “É, de fato, em meio às dores e aos medos, literalmente enumerados neste livro, que a falta parece se destacar. A falta da palavra, edificada em silêncio. A falta que nos aproxima, que nos torna humanos. A falta que nos constitui”, escreve Carla. “Descobrimos, então, que somos feitos de ausência, do que não somos. E que a poesia, se nasce da falta e busca preenchê-la, nada mais é do que a materialização do impossível: preencher a falta, traçar a linha tênue entre o riso e o choro, captar o momento exato em que a boca muda de direção.”

Adélia Prado e Adriana Lisboa foram principais referências para novo livro

Baiana, nascida em Itabuna, Renata Ettinger é publicitária, poeta e “dizedora” de versos que encontrou na palavra um lugar de ser. Publicou quatro livros de forma independente: “um eu in verso” (2002), “Oito Polegadas” (2018, junto com mais três poetas, “GRITO: silêncios ecoando em minha voz” (2020) e “A mesma vida é outra” (2022). Leitora voraz de poesia contemporânea, durante o período de isolamento social, realizou o projeto “Quarentena com Poema (QCP)”, em que compartilhou um poema em áudio por dia com amigos e interessados em poesia. Depois, criou o podcast “Trago Poemas”, iniciativa que caminha para o terceiro ano. Ambos estão disponíveis nas principais plataformas de streaming (Spotify, Deezer, Google Podcasts, entre outras).

Suas principais referências literárias são poetas contemporâneas como Adélia Prado, Conceição Evaristo, Ana Martins Marques, Adriane Garcia, Adriana Lisboa e Elisa Lucinda. Para “Habitadores”, Renata cita que as principais influências literárias foram “O Vivo”, de Adriana Lisboa, e o trabalho de Adélia Prado: “Nesse livro, ela está na epígrafe com o verso ‘dor não é amargura’,  que trouxe muita luz para o que eu estava sentindo e  escrevendo no momento”.

Confira o poema “habito dores”:

habito dores

do verbo

da hipocondria

do sentir

são

uma espécie

de casa

entro saio

durmo

me alimento

moro em dores

que eu conheço

mas também

em solos

nunca antes

visitados

na dor que

ainda não senti

chego

e logo penduro

nas paredes

espelhos para

me reconhecer

ali

habito dores

de todos os tempos

de muito antes

de eu existir

ou de

só agora percebi

dores que ainda

não têm nome

mas alimento

suas fomes

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