Literatura

Literatura ao melhor gosto do leitor

É quase consenso entre os teóricos da Literatura que o século passado enterrou junto com ele as características do grande romance literário. Agora, na chamada Pós-Modernidade (termo muito questionado em Literatura), a fórmula que delimita os gêneros literários modificou-se frente à invasão das novas mídias e ao novo público leitor. O autor não é mais o mesmo e muito menos quem o lê. Mas Literatura não é bagunça. Mesmo em eras de experimentação, é necessário ousar sempre mirando a potencialização do prazer da leitura.

Ousadia certeira é justamente o que define “Solidão e outras companhias” (Oito e Meio), livro de estreia do jornalista e escritor Márwio Câmara. Fruto da contemporaneidade, o autor, primeiro, nos entrega uma obra que pode ser lida tanto como romance quanto um livro de contos. Dividido em três partes, a saber, “Nós”, “Vós” e “Sós”, Márwio desenvolve uma trama que pode ser lida de forma contínua ou aleatória. Assim, cada conto é parte de algo maior (um romance), e cada capítulo do romance mantêm-se isoladamente como uma história de conflito próprio (conto). O leitor pode, portanto, escolher a forma de leitura e até o gênero do livro, poder impensável em outras épocas.

Quanto ao conteúdo, “Solidão e outras companhias” é escrito em fluída prosa poética (outra característica do autor em fundir prosa e poesia), e acompanha o narrador-personagem em três fases distintas da vida: a primeira parte desenvolve a convivência com os pais; a segunda acompanha períodos de um romance abrasador, sensual e inesquecível; e a terceira trata de descaminhos, crises, com cenas que denotam o sentido trágico da existência.

Em todos os contos (ou capítulos do romance), Márwio amplia o prazer da leitura ao adicionar referências de outras mídias ao leitor. Temos estímulos musicais por conta das ótimas músicas que permeiam a(s) trama(s); cinematográficos, devido aos filmes citados e trechos escritos aos moldes do cinema; e encontramos também referências teatrais. Isso é escrita fragmentada, ou seja, há uma ampliação da técnica literária por meio da adição de outras mídias.

Incorporando o caráter multimídia, Márwio adiciona a leitura parâmetros de uma realidade mais próxima ao leitor. Em suma, nós percebemos o cenário com mais clareza e sentimos as transformações e os dramas dos personagens porque as referências paralelas engrossam a verossimilhança da trama. Dito assim, pode parecer fácil, técnica usual a qualquer escritor, mas não, compare com um cozinheiro, por exemplo, em qualquer canto encontramos a lista de ingredientes para uma paella, mas não é qualquer um que a prepara satisfatoriamente. Da mesma forma, não fosse o talento do escritor com a fluidez da(s) trama(s), metáforas bem feitas, cenas contundentes e bem escritas, diálogos na medida, comprometimento com a arquitetura do texto, não fossem essas características bem desenvolvidas, teríamos um Frankenstein literário.

Por fim, arrisco que o título do livro é uma metáfora literária. “Solidão e outras companhias” remete a uma escolha consciente pelo afastamento das antigas formas romanescas que datam do meio do século XIX (“solidão”), e pela opção do autor em abraçar as outras mídias que fazem parte do cotidiano do leitor do século XXI (“e outras companhias”), como forma de enriquecer a experiência de leitura atual. Portanto, leia, é desses livros que encantam e destacam-se na produção literária atual do país.

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