Novas e velhas estórias em Jürgen de James Branch Cabell

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O escritor James Branch Cabell (1879-1958) foi considerado por todos os intelectuais ao longo dos anos 1920 e 1930 como um dos maiores romancistas de seu tempo. E de fato, um eminente candidato a receber o Prêmio Nobel, Cabell foi aclamado por escritores contemporâneos como Mark Twain ou F Scott Fitzgerald.
O autor pode ser esquecido hoje, mas foi uma das figuras verdadeiramente seminais dos gêneros de sci-fi e fantasia, Robert Heinlein (Tropas Estelares) e Jack Vance (Inédito no Brasil) começaram suas carreiras tentando, sem nenhum esforço, imitá-lo; Michael Moorcock, Ursula Le Guin, Fritz Leiber, Gene Wolfe, John Brunner, Neil Gaiman e Terry Pratchett são apenas alguns outros escritores que foram influenciados por ele.

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Em um período turbulento, atormentado por revoluções e onde os avanços científicos destruíam de uma maneira que logo estariam contra o próprio homem, Cabell reivindicou o papel da fantasia em suas narrativas contra a literatura de vanguarda, que achava pedante, e o realismo materialista, que o chateava.
O trabalho mais famoso de Cabell, embora não considerado universalmente sua obra-prima, foi um pequeno e estranho romance, Jürgen, A Comedy of Justice, que li recentemente ao ganhar alguns livros em espanhol. Ainda inédito em nosso país, algo que espero que seja remediado logo, é um ícone para toda uma geração, por trazer dentro de sua narrativa ficcional, meio que satiricamente e criticamente, um pouco de história moderna cultural e sociológica da sociedade americana dos anos 1920.
Jürgen, A Comedy of Justice é uma farsa sobre a vida e o destino, com um senso de humor refinado, que ridiculariza a vida cotidiana, os vícios sociais e os temas literários, embora com uma certa moralidade, o que enfraquece o resultado. Longe daquela literatura de fantasia épica tolkieniana ou do estilo espada e feitiçaria de Robert E. Howard, o livro é uma sátira que precede o mesmo gênero que poderia parodiar, com uma substância sobre a vida e o destino.

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A história traz Jurgen, um penhorista medieval de meia-idade que inadvertidamente fala bem do diabo e é recompensado com uma jornada de fantasia que o coloca em intimidade com uma grande variedade de grandes belezas do passado na imaginação erudita de Cabell. E é daí que observamos é que Jurgen pode se dar bem com quase tudo, até que descobre que mesmo a intensa fantasia de Helena de Tróia não pode se igualar à humilde realidade de seu lar, à qual ele implora para voltar.
Cabell escreveu com um humor crítico, que ridiculariza a vida cotidiana, os vícios sociais e os clichês literários. O início, por exemplo, que poderia ser digno de qualquer épico, alcança o patético quando um personagem lisonjeia o diabo, que, como agradecimento e não pelo castigo, liberta-o de sua esposa irada. E referências à literatura mais clássica não faltam. Do Ciclo Arturiano, a Dante Alighieri, passando por Ulisses a Victor Hugo.
Uma fábula que abusa de maneira bem sucedida do auge das crônicas arturianas, e apresenta perspicaz e sugestivamente, que foi considerado obceno na época, uma história única de extremo erotismo entre o personagem principal e diversas personagens como a Senhora do Lago, Guenevere, Helena de Troia, entre outras. Em certo sentido, e dentro de sua originalidade, Jürgen é uma narrativa filha de seu tempo que merece uma edição brasileira e que seja descoberto por outros.

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