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O Clã dos Magos de Trudi Canavan

Bem antes de Harry Potter, em 1992, um livro trazia a história um adolescente órfão, criado pelos tios, que descobre que possui poderes mágicos. Mas com algumas diferenças, além da diferença de cinco anos de publicação, esse jovem, ou melhor, a garota é uma menina de rua, num reino medieval de minorias que segregam a maioria, que manifesta seus poderes numa expurga. Interessante, não?

Capa original

O livro em questão acaba de chegar ao Brasil, O Clã dos Magos (The Black magician’s guild, tradução de Henrique Amat Rego Monteiro, 448 páginas, Novo Conceito), escrito pela australiana Trudi Canavan, premiada autora de fantasia que enfim aponta por aqui.

Primeiro livro da Trilogia do Mago Negro, narra a história de Sonea, uma mocinha que vive de pequenos furtos nas ruas de Imardin, capital do reino de Kyralia. Ali, todo ano, os magos se reúnem para realizar, junto com a guarda real, uma purificação nas ruas da cidade de criminosos, pedintes e vagabundos. Numa das expurgas, Sonea, furiosa com a forma que seus amigos e familiares são tratados, joga uma pedra em direção ao escudo protetor dos magos, atravessando e atingindo um deles, que cai inconsciente. A partir daí a mocinha terá que seguir em fuga, pelas favelas, pela cidade-baixa, pelos corredores dos ladrões, se escondendo do poderoso clã. Tudo isso porque os magos têm medo de uma não-treinada, cujos poderes possam descontrolar e destruir a ela e a sua cidade. Os magos empreendem uma perseguição para levarem a “selvagem” para sua universidade e bloquear seus poderes para sempre.

Esse é o argumento, bem dinâmico, com muita ação, numa ambientação bem construída, e, bastante realista, em relação às classes sociais. Os pobres são privados de tudo, somente dos subsídios mais básicos e até o inverno do ano posterior, quando são expulsos das ruas de Imarin. Como resultado, os personagens são divididos em três classes, a extremamente pobre, os confortavelmente ricos (nobres e magos) e aqueles que trabalham para os ricos, mas que são também considerados da classe baixa.

A idéia do conflito entre as classes sociais já é bem comum em outros livros juvenis de fantasia, mas a autora consegue impor uma vertente, somente os da classe alta podem enviar seus filhos com dotes mágicos para a universidade dos Magos de Imardin, enquanto ninguém de outra classe possa exceção casos raríssimos quando um mago adota, na maioria são perseguidos e bloqueados.

Canavan escreve com simplicidade, buscando atrair o leitor com uma trama de segregacionismo, mistério e aprendizagem, mas não contextualiza com a crueldade de Janny Wurtz (Circle of Fire) ou com a complexidade psicológica de Steven Erikson (Malaz: El Libro de los Caídos). Como todo primeiro volume, serve como uma introdução, com um suspense bem eficiente durante as perseguições e uma narrativa que abre caminho para outros desfechos, em especial sobre o jogo político de alguns magos para derrubarem o soberano.

A autora consegue impor seu mundo, como J.K.Howling, mas apesar da comparação, sua construção se atrela mais aos problemas sociais. No final do livro há um interessante glossário de todas as palavras, expressões, animais, lugares, comidas e roupas que se usam no cenário, além de mapas de vários lugares que são percorridos pelos personagens. E lembrando os personagens, a introdução de cada um é feita de forma lenta e meticulosa, para a apresentação dos mesmos não ser enfadonha, surpreendendo bastante a maneira em que serão conduzidos à trama. Satisfaz ler um argumento que parecia ter um desenrolar com um final daqueles cheio de clichês, mas que consegue revelar o que é necessário quando necessário. Classifico como um bom romance, rápido de se ler e como uma boa apresentação à fantasia adulta para nossos jovens adolescentes.

Fico no aguardo dos volumes seguintes: The novice e The High Lord, e parabéns à editora pela iniciativa de trazer mais romances de fantasia aos leitores aficionados do gênero.

O CLÃ DOS MAGOS, Trudi Canavan

  • Novo Conceito, 2012
  • R$34,00

[xrr rating=4.5/5]

 

 

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