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O Grito e o problema do fim inverossímil

O Grito (Editora Record, 2016) é o trabalho mais recente de Godofredo de Oliveira Neto. Desde o início, o que satisfaz a leitura é a utilização do Teatro para enriquecer e inspirar novos significados para a história. A fusão entre as artes parte dos dois protagonistas: a octogenária atriz aposentada Eugênia e o ator recém chegado no palco, Fausto.

Apenas dois personagens principais tornam o enredo simples de resumir: Eugênia vive no mesmo prédio de Fausto e conta experiências de carreira para o rapaz, enquanto ambos desenvolvem ideias dramatúrgicas baseadas em suas vidas. Estes relatos interpelam a trama principal com o formato de texto para teatro, com letras capitulares, ambientação e descrição gestual. Embora de enredo simples, as complexidades particulares encorpam e intensificam a trama.

grito-de-godofredo-de-oliveira-netoPrimeiro, contudo, convém explicar que como em alguns livros anteriores do autor, a história surge a partir do relato de um personagem, neste caso a octogenária atriz, para outra pessoa, ao qual só conhecemos sua identidade no penúltimo ato (como são nomeados os capítulos). Dito isso, temos de um lado uma atriz experiente, benigna, cheia de memórias vivas de seu passado administrando conhecimentos para o jovem rapaz. Do outro, Fausto é um homem que não consegue se estabelecer em seus empregos, carrega um charme particular que atrai várias mulheres e decide escolher o Teatro como profissão.

A relação estreita-se insinuando um affair; Fausto acaba contado de seus casos para Eugênia e ela demonstra certo ciúme, justificando que aquelas mulheres corromperiam ou impediriam o sucesso dele nos palcos. À beira do erotismo, ambos recuam. Logo Fausto utiliza suas memórias para criar cenas dramatúrgicas particulares enquanto Eugênia passa a questioná-lo de seu passado. Isso o irrita. Ele não se orgulha do que havia feito, mas não quer transformá-la em analista particular.

Acompanhamos o conflito enquanto Godofredo nos brinda com um belo trabalho de referências nos clássicos do Teatro que intensificam a relação entre os dois. A trama ganha corpo e os fluxos de consciência de Eugênia tornam a história saborosa de ser lida. Seguimos como personagem, ouvindo os depoimentos da atriz, até que nos deparamos com um final abrupto. E foi justamente no desfecho que o autor deixou a desejar.

Godofredo optou por finalizar a história com um grande acontecimento, contudo, pela descrição anterior que ele fez de sua personagem, não fica crível que ela tenha motivação suficiente para fazer o que fez. E por isso esta resenha possa parecer incompleta para tu, leitor. Como não posso entregar o final, o clímax inverossímil, não posso expor completamente o que falhou em aparecer para justificar o fim escolhido pelo autor. (O máximo que posso adiantar, pois, tu, leitor, pode estar imaginando, é que ela matou Fausto, mas não foi isso.)

O final escolhido foi, no meu entender, rompante, surpreendente, mas inverossímil devido às letras anteriores. Faltaram cenas, flashbacks ou insinuações que reforçassem a lógica interna dos personagens e tornassem o desfecho mais crível. Logo, a impressão que fica, ao longo das 158 páginas, na diagramação generosa da Editora Record, é que o autor contou com uma boa trama metalinguística com auríferas referências do Teatro, mas era necessário mais tempo para repensar e dar outro desfecho à relação entre Eugênia e Fausto e ao livro.

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