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O Trono do Sol: A magia da alvorada, de S.L. Farrell

Qual a fórmula de escrever um livro de Fantasia? Magos, anões, elfos em meio à batalhas contra orcs e seus senhores emprenhados em dominar aquele mundo. Ou teria missões heróicas para recuperar objetos e espadas mágicas durante fugas mirabolantes e lutas com bastante ação. Dragões… A lista de elementos seria enorme, como um apaixonado por fantasia, poderia citar vários outros ingredientes para essa receita. Tolkien quem o diga, o autor com sua criação máxima – a Terra Média de O senhor dos Anéis – foi um divisor de águas na literatura fantástica. Recentemente, parece que uma nova fórmula apareceu, com base em outro épico, na série As Crônicas de Gelo e Fogo de George R.R. Martin; saem os hobbits e entram batalhas sangrentas, traições e práticas amorais, tudo que a política e a intriga humana possam desenvolver. E O trono do sol: A magia do crepúsculo (Leya, 2012) pode ser muito bem ser o melhor exemplo desta nova leva fantástica de livros que abordam uma linguagem mais próxima da realidade medieval.

Escrito por S.L. Farrell, a narrativa adapta o renascimento italiano, transportando o leitor a uma cidade-estado, bem parecida com Veneza ou Florença medieval, porém maior. Um lugar majestoso e sedutor que está declinando em poder (decadência apresentada sutilmente), pois a cidade em questão tem uma presença em todo o livro que podemos tratá-la como a de uma personagem. Farrel é um autor competente em recriar um cenário medieval com peculiaridades próprias concebidas para a série. Criou, na verdade, um mundo peculiar pela complexidade e abrangência, numa prosa aberta, com diálogos realistas e descrições do cotidiano em geral maravilhosas

Como em Game of Thrones, em A Magic of twilight (título no original) há personagens que têm semelhanças: o monarca idoso, o príncipe herdeiro arrogante, o vassalo rebelde, a jovem envolvida em intrigas palacianas, o estrangeiro que instiga intrigas para beneficio próprio. Também alguns eventos seguem a mesma linha, como no caso da morte da rainha em comparação com o assassinato do rei Robert Baratheon. Facções, manobras políticas, conflitos armados como uma ficção histórica de Bernard Cornwell, magia a la Tolkien e a cultura medieval franco-italiana: tudo amalgamado numa história consistente.

Ambientada em Nessântico, uma cidade fictícia que durante séculos influenciou povos além de sua fronteira. Uma cidade forte, sedutora, e que mesmo sob efeito do comércio e da guerra abriga intelectuais, ricos e poderosos de todo o país. Governada por uma rainha que comemorará seu jubileu de paz e ferro, em meio ao desejo do herdeiro de assumir o trono e a ansiedade de provar para si mesmo que é capaz. A fé divide a população entre tolerantes e aqueles que querem ver culpados. Uma inquietação começa a se instalar naquele reino.

A força desse argumento está na conformação política que o autor constrói. Há pelo menos seis facções conflitantes, que se interagem, maquinando a queda uma da outra, enquanto fazem alianças. O retrato desta política maquiavélica mantém a atenção e proporciona surpresas comparáveis com o melhor de Robert Jordan (série A Roda do Tempo).

Os capítulos são divididos pelo elenco de personagens, cada um compartilhando seus papéis na sociedade desenvolvida por Farrel, além de suas perspectivas em relação aos acontecimentos que se seguem. A Krajilca, como chama a soberana; o Dhosti, o líder máximo da fé, posto tão alto configurado em um anão; o chefe da segurança de Nessântico, uma jovem sacerdotisa com uma impressionante habilidade mágica são alguns dos protagonistas mais interessantes pela profundidade que o autor direciona cada um.

Um dos aspectos mais interessantes está na religião da narrativa, a Fé Concénzia, suas permutações e o poder sobrenatural que exercem em seus adeptos. Infelizmente, não vou fazer spoiler, pois não quero tirar o principal atrativo desse primeiro volume. Problema mesmo foi entender as estruturas familiares e sociais desse primeiro volume de O Trono do Sol. Meio que complicado compreender o intrincado sistema de letras e apóstrofes, aparentemente aleatórias, para demonstrar a hierarquia social do cenário de Nessântico e arredores. Se não fosse o glossário e tantas outras páginas de informações no final do livro para pesquisar, seria um verdadeiro périplo terminá-lo.

Por fim, contornando as complexidades sociais, o livro é envolvente, seguro em sua ambientação; e o melhor, a trama é completa, não deixando nem um fio para outro volume. Uma agradável surpresa e que merece uma nota máxima. Nas palavras de George R.R. Martin: “uma mistura deliciosa de política, guerra, feitiçaria e religião (…)” Anotem os ingredientes pois parece que vem mais por aí.

[xrr rating=5/5]

 

A Magic of Twilight, S.L.Farrell

Leya, 2012

A magia da alvorada

Traduzido por Andr´Gordirro

580 páginas

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Publicado por Cadorno Teles

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