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O prédio, o tédio e o menino cego, de Santiago Nazarian

O prédio é inclinado. É torto, desmoronando enquanto os dias se esgotam. Tais quais seus moradores que se inclinam perante a mediocridade das futilidades de uma adolescência vadia. O tédio é invariável e absoluto, desgastando o cotidiano morno daqueles meninos; sete meninos, sendo o cego, apenas um entre os outros tantos. Cada qual um símbolo, um estereótipo da juventude moderna. O Andrógino, o Junkie, o Gordo, o Atleta, o Negro, o Narciso e o Cego. Esses são seus nomes, seus estigmas. O Prédio, o tédio e o menino cego é a história das mentes adolescentes que carentes de uma escola sempre em greve, precisavam se ocupar.

Dividido em três partes de sete capítulos cada, o romance faz de todo seu início um grande documento descritivo, onde Nazarian expõe a exaustão seus sete protagonistas. Um a um, eles são desnudos em seus anseios, temores, defeitos. As personalidades estereotipadas são apresentadas em detalhes: tem o menino afeminado que se refugia na internet, nas redes sociais; o negro pobre, vitimado pelo racismo enraizado e encoberto na sociedade; o gordo abobalhado, alvo dos mais diversos deboches; o menino bonito, rico, mimado e apaixonado por sua imagem no espelho; o deficiente visual que sempre rebaixado pelos colegas, faz-se estudioso, procurando destacar-se em algo; o forte e burro que cultua o próprio corpo; e o viciado, drogado, meio desligado e sem perspectivas.

Os sete levam a vida jogados pelos cantos, com muito tempo e ocupação nenhuma, até o dia em que o barulho dos sapatos dela ecoa pelos corredores. É Regina que se muda para a vizinhança, uma linda professora que de repente resolve acrescentar um pouco de ação a todo aquele ócio. É quando inexplicavelmente os garotos começam a morrer.

O prédio, o tédio e o menino cego é o livro do absurdo, dado ao humor satírico e a sequências inexplicáveis. Por vezes tedioso e chato e em outras vezes sublime em sua prosa poética. Faz comédia do ridículo – com seus zumbis e abruptas mudanças climáticas – e drama do desajuste familiar, pelo qual sofrem todos os meninos. E assim, Nazarian fica transitando entre a candura e a aberração.

Com um final incompreensível e uma narradora-personagem desconhecida (que pode de repente surgir na trama com uma espada celta em mãos) O prédio, o tédio e o menino cego não é um livro para agradar a todos os tipos de leitores, mas aos que agradar, vai agradar muito.

SANTIAGO NAZARIAN recebeu em 2003, o Prêmio Fundação Conrado Wessel de Literatura por Olívio, seu romance de estréia. É o autor de Mastigando humanos, Feriado de mim mesmo e A morte sem nome. Suas obras já fora publicadas na Europa e na América Latina. É roteirista, tradutor e filho do artista plástico Guilherme de Faria e da escritora Elisa Nazarian.  Santiago Nazarian mora em São Paulo e colabora com diversos periódicos.

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